2015 - 1984 = 51
Primeiro foi o PirateBay. Agora foram 51 sítios que, segundo o IGAC, se dedicavam à «disseminação de links que permitem aceder a vídeos, jogos, revistas ou música piratas». Não está em causa a justiça da medida, embora a sua eficácia seja questionável, já que qualquer pessoa que saiba utilizar o Google consegue facilmente contornar o bloqueio. De qualquer forma, o precedente é perigoso e ameaça a última fronteira da liberdade que é a internet. Em breve, com a banalização do bloqueio de sítios sob pretextos vagos e indefinidos, os alvos podem ser outros e as consequências bem mais graves. Orwell continua actual.
Os diários de Turner
«I Bet You Look Good on the Dancefloor», Arctic Monkeys.
Através de um magnífico artigo do The Guardian, fiquei a saber que já passaram dez anos desde que os Arctic Monkeys lançaram o primeiro single. Os Arctic Monkeys são para mim um caso especial. Comecei a ouvi-los através de umas versões bootleg de qualidade duvidosa sacadas do eMule e desde logo fiquei apanhado por aquela banda de miúdos praticamente da minha idade. A partir daí nunca deixei de os seguir com atenção, de tal forma que aconteceu algo curioso: à medida que a banda de Alex Turner evoluía do rock adolescente dos primórdios, que ilustrava o quotidiano com riffs de guitarra e calão de Sheffield, para uma sonoridade mais densa e mais negra, feita de sombras e ecos perdidos, também o meu gosto musical amadureceu, alargando horizontes num processo de crescimento paralelo. Pelo meio, tornou-se difícil enumerar as músicas que marcaram acontecimentos da minha vida. Hoje em dia, cinco álbuns depois, os Arctic Monkeys ainda são das bandas que mais ouço.
Lições de destruição criativa
É sabido que em Portugal tudo muda para ficar na mesma. No entanto, parece estar em curso um inédito processo de reconfiguração que pode mudar para sempre a paisagem política no nosso país. Já havia alguns sinais, mas poucos os levaram a sério. Em Junho de 2014, na sequência das eleições europeias e do desafio à liderança de António José Seguro, João Lopes escreveu um texto sobre «a morte anunciada do PS» que lido a esta distância parece brutalmente premonitório.
Na actual estratégia de «poder a todo o custo» dos socialistas, a «aliança de esquerdas» e a eleição de Ferro Rodrigues para Presidente da Assembleia da República podem parecer passos lógicos, mas constituem golpes nos alicerces do regime cujas consequências a longo prazo são difíceis de prever. Alain de Benoist invertia o princípio de Clausewitz para afirmar que «a política é a continuação da guerra por outros meios». E se até em guerra há regras (não) escritas e convenções reconhecidas, é absolutamente natural que os acordos de cavalheiros façam parte da praxis política. Numa altura em que se quebram com estrondo tradições que durante 40 anos equilibraram o sistema, é legítimo perguntar como será feita a partir de agora, por exemplo, a nomeação da administração da Caixa Geral de Depósitos ou a eleição dos juízes do Tribunal Constitucional, cuja composição até hoje reflectia os equilíbrios do chamado arco da governação. António Costa, na sua sede de poder, abriu a Caixa de Pandora e o cliché é irresistível: a partir de agora nada será como antes.
Na actual estratégia de «poder a todo o custo» dos socialistas, a «aliança de esquerdas» e a eleição de Ferro Rodrigues para Presidente da Assembleia da República podem parecer passos lógicos, mas constituem golpes nos alicerces do regime cujas consequências a longo prazo são difíceis de prever. Alain de Benoist invertia o princípio de Clausewitz para afirmar que «a política é a continuação da guerra por outros meios». E se até em guerra há regras (não) escritas e convenções reconhecidas, é absolutamente natural que os acordos de cavalheiros façam parte da praxis política. Numa altura em que se quebram com estrondo tradições que durante 40 anos equilibraram o sistema, é legítimo perguntar como será feita a partir de agora, por exemplo, a nomeação da administração da Caixa Geral de Depósitos ou a eleição dos juízes do Tribunal Constitucional, cuja composição até hoje reflectia os equilíbrios do chamado arco da governação. António Costa, na sua sede de poder, abriu a Caixa de Pandora e o cliché é irresistível: a partir de agora nada será como antes.
Dois pesos e duas medidas
À esquerda houve grande indignação com a comunicação do Presidente da República, especialmente com aquilo que consideram ser uma exclusão inaceitável da CDU e do Bloco de uma solução de governação. Lembra o Mr. Brown, e bem, que há 15 anos, quando cabia a Portugal a presidência da União Europeia, o Primeiro-Ministro António Guterres apareceu nas televisões com ar grave para ameaçar a Áustria de suspensão de contactos políticos caso o «governo de Viena [viesse a] integrar elementos do partido de extrema-direita de Joerg Haider». Um partido que tinha acabado de obter em eleições um resultado de 26,9% (1 244 087 votos). Na altura, perante os aplausos do mainstream político, o líder do PS afirmou até «que a UE não é apenas um mercado único e uma moeda única, mas "uma União baseada num conjunto de valores e de princípios e uma civilização comum"».
Por muito injusta e anti-democrática que seja a política de «cordão sanitário», constitui uma prática corrente em muitos países europeus. Basta lembrar os casos do Vlaams Belang na Bélgica e do Front National em França, que se vêem repetidamente excluídos de quaisquer soluções de coligação pelas restantes forças políticas. Esses casos, longe de serem uma novidade, nunca suscitaram a mais pequena indignação por parte dos que agora criticam Cavaco Silva. Antes pelo contrário. Todos os partidos são iguais, mas há alguns mais iguais do que outros, não é?
Por muito injusta e anti-democrática que seja a política de «cordão sanitário», constitui uma prática corrente em muitos países europeus. Basta lembrar os casos do Vlaams Belang na Bélgica e do Front National em França, que se vêem repetidamente excluídos de quaisquer soluções de coligação pelas restantes forças políticas. Esses casos, longe de serem uma novidade, nunca suscitaram a mais pequena indignação por parte dos que agora criticam Cavaco Silva. Antes pelo contrário. Todos os partidos são iguais, mas há alguns mais iguais do que outros, não é?
A grande fuga em frente
Desconhece-se se os dirigentes do PS que apostam tudo na «maioria de esquerda» o fazem por simples mau-perder, por receio que eventuais entendimentos com o PSD e o CDS possam conduzir a uma pasokização do partido, ou se acreditam genuinamente que um governo viabilizado pelos comunistas e pela esquerda folclórica pode de facto ter um futuro para além do primeiro orçamento. Talvez seja um pouco das três. Do que não há dúvidas é que António Costa está a jogar tudo pela sua sobrevivência política.
Embora a solução de governo defendida pelo PS tenha toda a legitimidade no quadro da aritmética parlamentar (#thisisnotacoup), apresenta contudo grandes riscos para o partido e para o país. Como bem lembrou Carlos Zorrinho num raro momento de lucidez, as grandes vitórias eleitorais socialistas — com Soares, Guterres e Sócrates — foram alcançadas sempre que o partido se posicionou ao centro. No actual contexto, uma «casa comum da esquerda», para além de abandonar ao PSD e CDS uma parte importante do eleitorado (que não se revê nem no modelo venezuelano nem nas filas dos multibancos gregos), vai colocar o PS na posição de refém do PCP e do BE. Estes, a partir da tomada de posse, terão automaticamente uma pistola apontada à cabeça do governo socialista e uma longa lista de coloridas reivindicações difíceis de cumprir num país sujeito a apertados compromissos internacionais. Não é por acaso que a esquerda radical tem mostrado grande entusiasmo perante esta hipótese de governo.
Que Costa, depois de uma campanha desastrosa e de um resultado eleitoral humilhante, persista nesta estratégia é compreensível. Já pouco tem a perder. Que exista no PS gente com ambições políticas que acredite no sucesso desta solução parece mais difícil de entender. Que ninguém no PS pareça seriamente empenhado em desafiar a liderança e travar este processo, só mostra que o partido bem merece acabar.
Embora a solução de governo defendida pelo PS tenha toda a legitimidade no quadro da aritmética parlamentar (#thisisnotacoup), apresenta contudo grandes riscos para o partido e para o país. Como bem lembrou Carlos Zorrinho num raro momento de lucidez, as grandes vitórias eleitorais socialistas — com Soares, Guterres e Sócrates — foram alcançadas sempre que o partido se posicionou ao centro. No actual contexto, uma «casa comum da esquerda», para além de abandonar ao PSD e CDS uma parte importante do eleitorado (que não se revê nem no modelo venezuelano nem nas filas dos multibancos gregos), vai colocar o PS na posição de refém do PCP e do BE. Estes, a partir da tomada de posse, terão automaticamente uma pistola apontada à cabeça do governo socialista e uma longa lista de coloridas reivindicações difíceis de cumprir num país sujeito a apertados compromissos internacionais. Não é por acaso que a esquerda radical tem mostrado grande entusiasmo perante esta hipótese de governo.
Que Costa, depois de uma campanha desastrosa e de um resultado eleitoral humilhante, persista nesta estratégia é compreensível. Já pouco tem a perder. Que exista no PS gente com ambições políticas que acredite no sucesso desta solução parece mais difícil de entender. Que ninguém no PS pareça seriamente empenhado em desafiar a liderança e travar este processo, só mostra que o partido bem merece acabar.
Vezes Dez
«Bloodflood Pt. II», Alt-J.
Corre a história que, em menos de um ano, os Alt-J vieram três vezes a Portugal, sempre a multiplicar o cachet por dez. Tudo começou em 2012 quando, ainda ilustres desconhecidos, estiveram em Barcelos para o Milhões de Festa. Uns meses depois, com «An Awesome Wave» a vencer o conceituado Mecury Prize, subiram ao Tivoli por ocasião do Vodafone Mexefest. No Verão de 2013, perante uma multidão, actuaram no palco secundário do Optimus Alive. Caso de popularidade súbita e improvável, com uma sonoridade muito vincada e um nome cheio de pretensiosismo hipster, houve logo quem visse nos Alt-J um fenómeno passageiro como tantos outros, um cometa que risca o céu e logo desaparece. Fizeram-se profecias de um declínio tão vertiginoso quanto a ascensão. No entanto, as notícias da morte da banda britânica foram manifestamente exageradas. Em 2014, mesmo apesar da perda de um elemento, superaram a difícil prova do segundo disco ao editar «This Is All Yours». É de lá que é extraído esta «Bloodflood Pt. II», reinvenção engenhosa de uma faixa do álbum de estreia.
Angola não é nossa
O caso de Luaty Beirão e dos presos políticos de Angola não serviu apenas para expor o controlo angolano sobre a generalidade da imprensa portuguesa. À honrosa excepção do Público e do grupo Impresa — curiosamente alvos frequentes da imprensa oficial angolana —, para os restantes meios de comunicação portugueses o caso tem sido uma mera nota de rodapé.
Ficámos também a saber que há pessoas, como o escritor José Eduardo Agualusa, que acham que o governo português deve tomar uma posição sobre esta situação. Por muito revoltante que seja este caso, Angola é um país soberano e independente. A sociedade portuguesa e a sociedade angolana têm todo o direito de se mobilizarem contra esta injustiça, que pôs a nu o simulacro de democracia existente em Luanda, mas a verdade... é que foi para isto que se fez o 25 de Abril.
Ficámos também a saber que há pessoas, como o escritor José Eduardo Agualusa, que acham que o governo português deve tomar uma posição sobre esta situação. Por muito revoltante que seja este caso, Angola é um país soberano e independente. A sociedade portuguesa e a sociedade angolana têm todo o direito de se mobilizarem contra esta injustiça, que pôs a nu o simulacro de democracia existente em Luanda, mas a verdade... é que foi para isto que se fez o 25 de Abril.
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