Acompanho a guerra civil da Síria desde as primeiras manifestações contra Assad e desde cedo começaram a surgir notícias, entre a fragmentação de milícias que combatiam o regime de Damasco, de um grupo de bandeiras negras, combatentes aguerridos e métodos brutais. Na altura, os norte-americanos liderados pelo Prémio Nobel da Paz apoiavam a insurreição com instrução e armamento, enquanto na Europa os políticos e a imprensa queimavam todas pontes com o acossado regime de Assad, na ingénua esperança de uma mudança geopolítica favorável aos interesses ocidentais, ignorando uma longa lista de falhanços semelhantes na qual a Líbia era o exemplo mais recente. Enquanto isso, para quem acompanhava as notícias da Síria com mais atenção, era óbvio que uma grave ameaça estava a germinar no território. Maior que o regime de Assad, que apesar de todos os abusos e restrições à liberdade geria um país em que as instituições funcionavam e que em termos internacionais já não representava qualquer ameaça. O grupo das bandeiras negras, alimentado do ressentimento sunita e do caos no Iraque e na Síria, utilizando armas e equipamento de fabrico americano saqueados dos paióis do exército iraquiano ou pilhados a outras milícias rebeldes, ganhava terreno em todas as frentes, assimilando ou eliminando os grupos concorrentes, até se tornar o grande actor regional que é hoje.
O Estado Islâmico tornou-se o epicentro de todas as discussões. Não alinho em teorias da conspiração, mas a verdade é que a acção do Ocidente, mesmo que involuntária e indirecta, contribuiu de forma decisiva para a sua afirmação.
Os elefantes na sala
Depois dos acontecimentos de Paris, é previsível que avancem mais medidas de controlo das comunicações e circulação dos europeus. A internet será mais vigiada, as telecomunicações mais rastreadas, a video-vigilância (ainda) mais omnipresente. Mais controlo, menos liberdade, mas nem por isso mais segurança. Os ataques vão continuar a acontecer, provavelmente com maior frequência. É a resposta possível a um problema cujas causas os políticos europeus insistem em não enfrentar. É impossível negar que os ataques de Paris são uma consequência natural da política de «portas abertas» que há décadas tem sido imposta sem discussão por toda a Europa. Todos aqueles que há anos se opõem à política de imigração maciça são rotulados de «alarmistas» e «extremistas», mas a verdade é que os seus receios se têm concretizado aos olhos de todos. É hora de enfrentar este problema com frontalidade e coragem.
Homeopatia orçamental
Na estreia parlamentar, o deputado eleito pelo PAN defendeu a inclusão das terapias alternativas na oferta do Serviço Nacional de Saúde. O PS, nesse tema, já está muito à frente. Na revisão do programa macroeconómico diluiu mil vezes as medidas de controlo orçamental e prevê o mesmo défice.
Ouvir para esquecer
«Say», Cat Power.
É triste assistir à decadência de um artista. Nunca tive essa experiência de forma tão directa como no concerto de Cat Power por ocasião da edição de 2014 do Super Bock Super Rock. Foi um espectáculo atípico a vários níveis e a culpa não foi apenas de Chan Marshall, cuja atribulada carreira dava para escrever vários livros. Em primeiro lugar, caiu uma inesperada chuvada ao princípio da noite, que obrigou à reformulação do alinhamento do palco secundário. O concerto de Cat Power foi adiado e depois encurtado, também devido às exigências do espectáculo acústico de Eddie Vedder no palco principal.
Chan Marshall lá subiu ao palco com algumas horas de atraso, com um ar pesado e envelhecido, vestindo uma camisa xadrez de flanela sobre uma t-shirt dos Wu-Tang Clan. O que se seguiu foi um espectáculo verdadeiramente deprimente, em que apesar do esforço e boa vontade a artista não conseguiu mais do que parecer uma má imitação de si própria. Perante uma banda competente, que olhava para a cantora com a condescendência de quem já viu demasiado ao longo da tournée, Chan Marshall interpretou meia dúzia de canções com um ar desorientado e uma voz que alternava entre o mau e o irreconhecível. E se nas pausas entre a música a artista entrava em monólogos incompreensíveis, o mais desconcertante estava guardado para o fim. Com o final abrupto do concerto, Chan Marshall decidiu agradecer às primeiras filas do público oferecendo tudo o que tinha à mão: desde setlists e autocolantes promocionais às flores que pouco antes um fã lhe tinha oferecido até, por fim, ao conteúdo da própria carteira.
Quando soube que Cat Power voltaria este ano a Portugal para um concerto no CCB, decidi desde logo ficar em casa. As memórias do concerto do Super Bock ainda me assombram sempre que volto a uma discografia repleta de grandes momentos. Refugiei-me nos discos e não arrisquei outra desilusão.
2015 - 1984 = 51
Primeiro foi o PirateBay. Agora foram 51 sítios que, segundo o IGAC, se dedicavam à «disseminação de links que permitem aceder a vídeos, jogos, revistas ou música piratas». Não está em causa a justiça da medida, embora a sua eficácia seja questionável, já que qualquer pessoa que saiba utilizar o Google consegue facilmente contornar o bloqueio. De qualquer forma, o precedente é perigoso e ameaça a última fronteira da liberdade que é a internet. Em breve, com a banalização do bloqueio de sítios sob pretextos vagos e indefinidos, os alvos podem ser outros e as consequências bem mais graves. Orwell continua actual.
Os diários de Turner
«I Bet You Look Good on the Dancefloor», Arctic Monkeys.
Através de um magnífico artigo do The Guardian, fiquei a saber que já passaram dez anos desde que os Arctic Monkeys lançaram o primeiro single. Os Arctic Monkeys são para mim um caso especial. Comecei a ouvi-los através de umas versões bootleg de qualidade duvidosa sacadas do eMule e desde logo fiquei apanhado por aquela banda de miúdos praticamente da minha idade. A partir daí nunca deixei de os seguir com atenção, de tal forma que aconteceu algo curioso: à medida que a banda de Alex Turner evoluía do rock adolescente dos primórdios, que ilustrava o quotidiano com riffs de guitarra e calão de Sheffield, para uma sonoridade mais densa e mais negra, feita de sombras e ecos perdidos, também o meu gosto musical amadureceu, alargando horizontes num processo de crescimento paralelo. Pelo meio, tornou-se difícil enumerar as músicas que marcaram acontecimentos da minha vida. Hoje em dia, cinco álbuns depois, os Arctic Monkeys ainda são das bandas que mais ouço.
Lições de destruição criativa
É sabido que em Portugal tudo muda para ficar na mesma. No entanto, parece estar em curso um inédito processo de reconfiguração que pode mudar para sempre a paisagem política no nosso país. Já havia alguns sinais, mas poucos os levaram a sério. Em Junho de 2014, na sequência das eleições europeias e do desafio à liderança de António José Seguro, João Lopes escreveu um texto sobre «a morte anunciada do PS» que lido a esta distância parece brutalmente premonitório.
Na actual estratégia de «poder a todo o custo» dos socialistas, a «aliança de esquerdas» e a eleição de Ferro Rodrigues para Presidente da Assembleia da República podem parecer passos lógicos, mas constituem golpes nos alicerces do regime cujas consequências a longo prazo são difíceis de prever. Alain de Benoist invertia o princípio de Clausewitz para afirmar que «a política é a continuação da guerra por outros meios». E se até em guerra há regras (não) escritas e convenções reconhecidas, é absolutamente natural que os acordos de cavalheiros façam parte da praxis política. Numa altura em que se quebram com estrondo tradições que durante 40 anos equilibraram o sistema, é legítimo perguntar como será feita a partir de agora, por exemplo, a nomeação da administração da Caixa Geral de Depósitos ou a eleição dos juízes do Tribunal Constitucional, cuja composição até hoje reflectia os equilíbrios do chamado arco da governação. António Costa, na sua sede de poder, abriu a Caixa de Pandora e o cliché é irresistível: a partir de agora nada será como antes.
Na actual estratégia de «poder a todo o custo» dos socialistas, a «aliança de esquerdas» e a eleição de Ferro Rodrigues para Presidente da Assembleia da República podem parecer passos lógicos, mas constituem golpes nos alicerces do regime cujas consequências a longo prazo são difíceis de prever. Alain de Benoist invertia o princípio de Clausewitz para afirmar que «a política é a continuação da guerra por outros meios». E se até em guerra há regras (não) escritas e convenções reconhecidas, é absolutamente natural que os acordos de cavalheiros façam parte da praxis política. Numa altura em que se quebram com estrondo tradições que durante 40 anos equilibraram o sistema, é legítimo perguntar como será feita a partir de agora, por exemplo, a nomeação da administração da Caixa Geral de Depósitos ou a eleição dos juízes do Tribunal Constitucional, cuja composição até hoje reflectia os equilíbrios do chamado arco da governação. António Costa, na sua sede de poder, abriu a Caixa de Pandora e o cliché é irresistível: a partir de agora nada será como antes.
Dois pesos e duas medidas
À esquerda houve grande indignação com a comunicação do Presidente da República, especialmente com aquilo que consideram ser uma exclusão inaceitável da CDU e do Bloco de uma solução de governação. Lembra o Mr. Brown, e bem, que há 15 anos, quando cabia a Portugal a presidência da União Europeia, o Primeiro-Ministro António Guterres apareceu nas televisões com ar grave para ameaçar a Áustria de suspensão de contactos políticos caso o «governo de Viena [viesse a] integrar elementos do partido de extrema-direita de Joerg Haider». Um partido que tinha acabado de obter em eleições um resultado de 26,9% (1 244 087 votos). Na altura, perante os aplausos do mainstream político, o líder do PS afirmou até «que a UE não é apenas um mercado único e uma moeda única, mas "uma União baseada num conjunto de valores e de princípios e uma civilização comum"».
Por muito injusta e anti-democrática que seja a política de «cordão sanitário», constitui uma prática corrente em muitos países europeus. Basta lembrar os casos do Vlaams Belang na Bélgica e do Front National em França, que se vêem repetidamente excluídos de quaisquer soluções de coligação pelas restantes forças políticas. Esses casos, longe de serem uma novidade, nunca suscitaram a mais pequena indignação por parte dos que agora criticam Cavaco Silva. Antes pelo contrário. Todos os partidos são iguais, mas há alguns mais iguais do que outros, não é?
Por muito injusta e anti-democrática que seja a política de «cordão sanitário», constitui uma prática corrente em muitos países europeus. Basta lembrar os casos do Vlaams Belang na Bélgica e do Front National em França, que se vêem repetidamente excluídos de quaisquer soluções de coligação pelas restantes forças políticas. Esses casos, longe de serem uma novidade, nunca suscitaram a mais pequena indignação por parte dos que agora criticam Cavaco Silva. Antes pelo contrário. Todos os partidos são iguais, mas há alguns mais iguais do que outros, não é?
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