O Problema de Aladino

"Na realidade, preocupa-me menos o pensamento de que os meus antepassados se revolveriam no túmulo, do que o meu apego à tradição. Sou conservador por nascimento e inclinação e, mais ainda, por comodismo. Para além disso prejudicaria a minha profissão. Da mesma forma, não posso prescindir das minhas maneiras, embora as adapte consoante a sociedade e as circunstâncias.
Procuro ser discreto na forma de vestir e na maneira de proceder; uso fatos cinzentos de bom tecido. Multidões de qualquer espécie são-me penosas; no teatro prefiro a plateia central e um lugar de coxia, do qual me possa levantar rapidamente, passando despercebido. Diante dos guichets e ao embarcar no avião fico sempre para trás. Na esgrima prefiro esquivar-me a recuar.
Fujo a querelas e a discussões, todavia sou incansável na conversa com um amigo ou com uma amiga, ainda que não partilhem a minha opinião, a qual tenho por hábito guardar para mim quando em sociedade. Sou igualmente um bom ouvinte."
Ernst Jünger
in O Problema de Aladino.

Paredes de vidro



«Walking With Elephants», Ten Walls.

Ten Walls (ou Marijus Adomaitis) é um produtor lituano de música electrónica. Em Setembro de 2014, com a edição de «Walking With Elephants», atingiu diversos tops europeus (6º lugar no UK Singles Chart e 3º lugar no UK Dance Chart). O êxito do tema valeu-lhe convites para os principais festivais de música da Europa. Tudo parecia correr bem ao DJ lituano até que, em Junho de 2015, um comentário infeliz no Facebook com críticas a práticas homossexuais deitou tudo a perder. Embora Ten Walls tenha apagado o comentário e publicado um pedido de desculpas, a polémica estava lançada. É sabido que nos tempos que correm uma simples frase pode ser o suficiente para desencadear um auto-de-fé. No meio de um coro de condenações e pedidos de boicote, vários festivais anunciaram o cancelamento das actuações de Ten Walls e própria agência que o representava terminou publicamente a ligação. Mais tarde, foi o próprio DJ a anunciar o cancelamento de todas as datas da tournée, incluindo a actuação que estava agendada para última sexta-feira no NOS Alive. Queimada a efígie de Ten Walls, estamos todos mais seguros.

Para comemorar o 4th of July



Killing Them Softly (2012)

Falsos detectives


Um final inacreditavelmente mau estragou a (até aí) excelente primeira temporada de «True Detective». Ainda assim, a série foi um dos grandes acontecimentos televisivos de 2014. Há poucos dias começou a segunda temporada, com outra história, outras personagens e outro cenário. Dos pântanos do Louisiana a série mudou-se para o calor da Califórnia, onde três polícias de diferentes departamentos se cruzam para resolver um estranho homicídio, com a intervenção de um empresário ligado ao submundo do crime. Talvez seja da mudança de realizador ou das expectativas estarem demasiado altas, mas a sequência final ao som da música de Nick Cave foi das poucas coisas que se aproveitaram do episódio de estreia. Uma trama demasiado intrincada, actores em constante overacting e personagens com pouca espessura (salva-se Vince Vaughn no papel de Frank Semyon, porque o detective Velcoro de Colin Farrell é um autêntico cliché com pernas) não auguram nada de bom. Embora tente constantemente emular a atmosfera densa e asfixiante da primeira temporada, esta season parece por vezes mais próxima do espírito de um CSI, sem nunca conseguir reproduzir a presença maligna latente que marcava a investigação dos detectives Rust Cohl e Marty Hart. Com muitos episódios pela frente, fica a esperança que a segunda temporada de «True Detective» consiga mostrar que o primeiro episódio foi apenas uma falsa partida.