Para comemorar o 4th of July



Killing Them Softly (2012)

Falsos detectives


Um final inacreditavelmente mau estragou a (até aí) excelente primeira temporada de «True Detective». Ainda assim, a série foi um dos grandes acontecimentos televisivos de 2014. Há poucos dias começou a segunda temporada, com outra história, outras personagens e outro cenário. Dos pântanos do Louisiana a série mudou-se para o calor da Califórnia, onde três polícias de diferentes departamentos se cruzam para resolver um estranho homicídio, com a intervenção de um empresário ligado ao submundo do crime. Talvez seja da mudança de realizador ou das expectativas estarem demasiado altas, mas a sequência final ao som da música de Nick Cave foi das poucas coisas que se aproveitaram do episódio de estreia. Uma trama demasiado intrincada, actores em constante overacting e personagens com pouca espessura (salva-se Vince Vaughn no papel de Frank Semyon, porque o detective Velcoro de Colin Farrell é um autêntico cliché com pernas) não auguram nada de bom. Embora tente constantemente emular a atmosfera densa e asfixiante da primeira temporada, esta season parece por vezes mais próxima do espírito de um CSI, sem nunca conseguir reproduzir a presença maligna latente que marcava a investigação dos detectives Rust Cohl e Marty Hart. Com muitos episódios pela frente, fica a esperança que a segunda temporada de «True Detective» consiga mostrar que o primeiro episódio foi apenas uma falsa partida.

Feminismo conveniente

Para as activistas feministas francesas da FEMEN, o problema não é a imposição discreta da charia em muitas zonas de França, com mulheres que se vêem submetidas às interpretações mais integrais do Islão, impedidas de trabalhar ou tão simplesmente de andar na rua de face descoberta, forçadas a práticas ritualistas brutais como a mutilação genital. O problema, para as francesas da FEMEN, é o Front National.

Malapartismos (III)

"Na civilização moderna, meu caro De Foxà, infelizmente um buraco de golfe tem a mesma importância que uma catedral gótica.
— Peçamos a Deus que salve da guerra pelo menos os buracos de gole — disse De Foxà.
No fundo, De Foxà não se importava nem com os buracos de golfe nem com as catedrais góticas. Era profundamente católico, mas à maneira espanhola, isto é, considerava os problemas religiosos como problemas pessoais seus, e mantinha perante a Igreja e os próprios problemas da consciência católica uma liberdade de espírito — a famosa insolência espanhola — que não tinha nada que ver com a liberdade de espírito voltairiana. E também não era diferente a sua atitude perante qualquer problema político, social, artístico. Era falangista, mas da mesma maneira que um espanhol é comunista ou anarquista, isto é, à maneira católica. E era a isso que De Foxà chamava «estar encostado à parede». Todo o espanhol é um homem livre, mas com as costas apoiadas numa parede, a alta, lisa, insuperável parede católica, a parede teologal, a parede da velha Espanha, a mesma contra a qual disparam os pelotões de execução (anarquistas, republicanos, monárquicos, fascistas, comunistas), a mesma diante da qual se celebram os autos-de-fé e se representam os diálogos teológicos dum auto sacramental.
O facto de representar na Finlândia a Espanha de Franco (Hubert Guérin, ministro da França de Pétain, chamava a De Foxà «o ministro da Espanha de Vichy») não o impedia de rir com desprezo de Franco e da sua revolução. De Foxà pertencia à jovem geração espanhola que tinha tentado dar ao marxismo um fundamento feudal e católico, e, como ele próprio dizia, dar ao leninismo uma teologia, conciliar a velha Espanha católica e tradicional com a jovem Europa operária. E agora ria das generosas ilusões da sua própria geração, e da falência daquela tentativa trágica e ridícula."
Curzio Malaparte
in Kaputt.

Dez



«Baby We'll Be Fine», The National.

Se há discos que mudam a vida de quem os ouve, Alligator é para mim um desses discos. Quando há dias reparei que já passaram dez anos desde que o álbum foi editado não queria acreditar. Dez anos, já? De facto, só comecei a ouvir os The National algures em 2007, aquando do lançamento de Boxer, o que me deixa um bocadinho menos preocupado com a forma como o tempo tem passado por mim. Mas se foi este disco que abriu as portas do sucesso à banda de Matt Berninger, a verdade é que sempre achei Alligator mais forte, mais consistente, superior. Não se limitou a representar a banda sonora de um período específico da minha vida, mas continuou a acompanhar-me em inúmeras ocasiões, com faixas a adquirirem significados diferentes à medida que o tempo passava. Dez anos depois, Alligator não parece datado. Continua a fazer tanto sentido como se tivesse sido editado há dez dias.