Feminismo conveniente

Para as activistas feministas francesas da FEMEN, o problema não é a imposição discreta da charia em muitas zonas de França, com mulheres que se vêem submetidas às interpretações mais integrais do Islão, impedidas de trabalhar ou tão simplesmente de andar na rua de face descoberta, forçadas a práticas ritualistas brutais como a mutilação genital. O problema, para as francesas da FEMEN, é o Front National.

Malapartismos (III)

"Na civilização moderna, meu caro De Foxà, infelizmente um buraco de golfe tem a mesma importância que uma catedral gótica.
— Peçamos a Deus que salve da guerra pelo menos os buracos de gole — disse De Foxà.
No fundo, De Foxà não se importava nem com os buracos de golfe nem com as catedrais góticas. Era profundamente católico, mas à maneira espanhola, isto é, considerava os problemas religiosos como problemas pessoais seus, e mantinha perante a Igreja e os próprios problemas da consciência católica uma liberdade de espírito — a famosa insolência espanhola — que não tinha nada que ver com a liberdade de espírito voltairiana. E também não era diferente a sua atitude perante qualquer problema político, social, artístico. Era falangista, mas da mesma maneira que um espanhol é comunista ou anarquista, isto é, à maneira católica. E era a isso que De Foxà chamava «estar encostado à parede». Todo o espanhol é um homem livre, mas com as costas apoiadas numa parede, a alta, lisa, insuperável parede católica, a parede teologal, a parede da velha Espanha, a mesma contra a qual disparam os pelotões de execução (anarquistas, republicanos, monárquicos, fascistas, comunistas), a mesma diante da qual se celebram os autos-de-fé e se representam os diálogos teológicos dum auto sacramental.
O facto de representar na Finlândia a Espanha de Franco (Hubert Guérin, ministro da França de Pétain, chamava a De Foxà «o ministro da Espanha de Vichy») não o impedia de rir com desprezo de Franco e da sua revolução. De Foxà pertencia à jovem geração espanhola que tinha tentado dar ao marxismo um fundamento feudal e católico, e, como ele próprio dizia, dar ao leninismo uma teologia, conciliar a velha Espanha católica e tradicional com a jovem Europa operária. E agora ria das generosas ilusões da sua própria geração, e da falência daquela tentativa trágica e ridícula."
Curzio Malaparte
in Kaputt.

Dez



«Baby We'll Be Fine», The National.

Se há discos que mudam a vida de quem os ouve, Alligator é para mim um desses discos. Quando há dias reparei que já passaram dez anos desde que o álbum foi editado não queria acreditar. Dez anos, já? De facto, só comecei a ouvir os The National algures em 2007, aquando do lançamento de Boxer, o que me deixa um bocadinho menos preocupado com a forma como o tempo tem passado por mim. Mas se foi este disco que abriu as portas do sucesso à banda de Matt Berninger, a verdade é que sempre achei Alligator mais forte, mais consistente, superior. Não se limitou a representar a banda sonora de um período específico da minha vida, mas continuou a acompanhar-me em inúmeras ocasiões, com faixas a adquirirem significados diferentes à medida que o tempo passava. Dez anos depois, Alligator não parece datado. Continua a fazer tanto sentido como se tivesse sido editado há dez dias.

Um Artista Americano

A história é digna do Malomil, mas só há dias é que cheguei até ela. Trata-se da história de Nat Tate, o grande pintor americano "perdido", que há poucos anos foi redescoberto. Segundo a biografia, Tate era uma figura respeitada da cena artística de Nova Iorque durante a década de 50. Com 31 anos, e depois de uma visita à Europa onde entrou em contacto com artistas cujo trabalho o assombrou profundamente, destruiu a maior parte da sua obra e acabou com a própria vida atirando-se do ferry de Staten Island. O seu corpo nunca foi encontrado. Uma retrospectiva da obra deste pintor atormentado foi publicada em 1998, com apresentação a cargo de David Bowie e Gore Vidal.

O único problema na história de Nat Tate... é que ele nunca existiu. Tudo não passou de uma invenção do argumentista britânico William Boyd, com a colaboração de diversos amigos (entre os quais David Bowie e Gore Vidal). Uma fraude criada com o objectivo de expor a ignorância do milieu artístico — no qual ninguém admitia desconhecer Nat Tate e alguns diziam até ter ouvido falar dele. A verdade foi revelada pouco tempo depois. O que não impediu que em 2011 um quadro de Nat Tate fosse leiloado pela Sotheby's em Londres.

À viagem com Hemingway

"— (...) Como vê, nós transformamos os nossos escritores numa coisa muito estranha.
— Não percebo.
— Destruímo-los de muitas maneiras. Primeiro economicamente. Ganham dinheiro. É apenas por acaso que um escritor ganha dinheiro. Então os nossos escritores, quando ganham dinheiro, elevam o seu nível de vida e estão tramados. Têm que escrever para sustentar a casa, a mulher e o resto e escrevem porcarias. Não escrevem porcarias de propósito, mas porque escrevem depressa. Porque escrevem quando não têm nada para dizer, quando não têm mais água no poço. Porque são ambiciosos. E depois, desde que se traíram uma vez, querem-se justificar e temos mais bodegas."

Ernest Hemingway
in "As Verdes Colinas de África".

Para ouvir com chuva lá fora



«Home», Daughter.

Há bandas que soam melhor em certas épocas do ano. Vi em tempos os Daughter num Coliseu apinhado, pertinho de uma Avenida da Liberdade onde se cruzavam castanhas assadas e chocolate quente, por ocasião do Vodafone Mexefest. Foi um concerto belo e inesquecível. Uns meses depois, numa noite quente de Verão, voltaram a Portugal para o recém-baptizado NOS Alive. A plateia estava repleta, mas não foi a mesma coisa. Os Daughter não são uma banda para o Verão, e muito menos para o Verão de Lisboa, feito de luz, de sons e de cheiros. Antes que este Verão se instale definitivamente, escutemo-los uma última vez.

Malapartismos (II)

"— Estávamos na margem do Ládoga — conta De Foxà —, na floresta de Ràikkola. Alguns sissit finlandeses tinham encontrado, numa trincheira russa, uma caixa cheia de uma espécie de gordura cinzento-escura. Um dia, o coronel Merikallio entra num korsu da primeira linha, onde alguns sissit estavam a engraxar as botas para a neve. O coronel Merikallio fareja o ar e diz: «Que estranho cheiro.» Era um cheiro a peixe. «É esta pomada para sapatos que cheira a peixe», diz um sissit, mostrando ao coronel uma caixa de lata. Era uma caixa de caviar.
— O caviar russo só serve para engraxar as botas — diz o governador com desprezo."
Curzio Malaparte
in Kaputt.

Uma Nova Esperança

Numa reviravolta inesperada, o Presidente da República vetou a revisão da Lei da Cópia Privada. Uma proposta de lei que se propunha taxar dispositivos de armazenamento digital usados para guardar documentos pessoais em nome de uma hipotética "compensação equitativa" era manifestamente injusta e absurda. Mesmo que fosse praticamente impossível encontrar alguém fora da órbita da Sociedade Portuguesa de Autores que defendesse esta tentativa de extorsão dos cidadãos, isso não impediu que fosse aprovada pela generalidade da bancada do PSD e CDS (com as honrosas excepções de João Rebelo e Michael Seufert do CDS). Os argumentos expostos na mensagem que acompanhou a decisão do Presidente da República são do mais elementar bom-senso e vão na linha das questões que vários grupos de cidadãos levantaram ao longo do processo de apresentação da Lei. Dá que pensar no que estarão a fazer no Parlamento os 130 deputados que votaram a favor desta Lei.

Miúdos e graúdos



«Echoing Green», Equations.

Há uns anos, Jorge Jesus envolveu-se numa polémica com André Villas-Boas, à época treinador do FC Porto, apelidando-o de miúdo em tom depreciativo e paternal. Passado uns meses, Villas-Boas dava uma lição de futebol ao Benfica de JJ. É um pouco o que se passa com estes Equations. Embora nem todos sejam do Porto, estes miúdos estão prontos para dar uma banhada a quem os encarar com paternalismo. Em «Hightower», um disco com produção de Luís Clara Gomes (aka Moullinex), mostram-se surpreendentemente maduros. A energia do disco é gerida com a mestria que faltava em «Frozen Caravels». A ânsia de mostrar tudo ao mesmo tempo foi substituída pela confiança de quem sabe esperar pelos momentos certos para jogar os seus trunfos. Esta segurança reflecte-se em palco, com arranjos e variações que acrescentam um brilho especial às canções (absolutamente demolidora a forma como terminaram o concerto na ZDB, com um outro interminável de «Ssssuuunnn»). Os miúdos cresceram e ao segundo disco arriscam-se a fazer um dos álbuns de 2015. O reconhecimento público é uma questão de tempo.

LennoX



"I haven’t been everywhere, but Portugal’s my favorite place I’ve ever been."

Malapartismos

«—  Papillon. C'est un joli nom: papillon — disse Alfieri com a sua voz estúpida e galante. — Observou que a palavra borboleta, em francês, é do género masculino, e em italiano do género feminino? On est très galant avec les femmes, en Italie.
Vous voulez dire avec les papillons — disse a princesa Von T.
— Em alemão — disse Dornberg —, a palavra borboleta também é do género masculino: der Schmetterling. Na Alemanha temos tendência para exaltar o género masculino.
Der Krieg, a guerra — disse a marquesa Theodoli.
Der Tod, a morte — disse Virginia Casardi.
— Em grego, a morte também é do género masculino: o deus Thanatos — disse Dornberg.
— Mas, em alemão — observei — , o Sol é do género feminino: Die Sonne. Não se pode compreender a história do povo alemão se não se tiver em mente que é a história de um povo para o qual o Sol é do género feminino.»
Curzio Malaparte
in Kaputt.

Voltar a casa

É isso mesmo.

O 25 de Abril foi bom porque antes não havia internet

Lembro-me de uma entrevista de Rui Ramos à revista Ler em que o historiador dizia que crescer na Margem Sul do Tejo tinha sido uma espécie de vacina contra o comunismo. Comigo aconteceu algo semelhante. Na escola primária, entre outras coisas, a professora dizia que «antes do 25 de Abril não se podia arrotar na rua» e que um dia, quando era miúda, esteve quase a ser presa pela PIDE depois de ser «apanhada a colher fruta no quintal do vizinho». É dela que me tenho lembrado nestes dias, ao ver a quantidade de barbaridades que se têm dito a propósito do regime a que o 25 de Abril pôs fim.

Duplopenso logo existo

Na última semana, o presidente-executivo da Mozilla foi forçado a demitir-se por em 2008 ter doado mil dólares para apoiar a Proposition 8, uma petição contra a legalização do casamento gay no estado da Califórnia. Independentemente da posição de cada um relativamente ao tema, Brendan Eich não matou ninguém, não roubou ninguém, não cometeu qualquer ilegalidade. Limitou-se a contribuir para uma campanha que tinha como objectivo levar a discussão pública, e de forma democrática, um tema polémico.
Vivemos numa época em pode ser perigoso ter convicções. Orwell tinha razão.

Somos Tara Perdida



Os Tara Perdida foram a banda sonora da minha adolescência. Conhecia todas as faixas, tinha as letras na ponta da língua. E vi tantos concertos que comecei a conhecer todas as variações das músicas ao vivo. Entre os momentos mais marcantes, lembro-me do concerto do Rock in Rio em 2006 onde entortei a cana do nariz no meio de um mosh, ou do inesquecível concerto na Incrível Almadense que deu origem ao DVD que condensa todos os grandes momentos musicais da banda. Lembro-me ainda do concerto no Sudoeste de 2007, quando os Tara Perdida eram já um fenómeno de massas, em que o mosh transbordava a tenda que dava abrigo ao palco secundário. Em jeito de compensação, no ano seguinte os Tara Perdida tiveram direito ao palco principal e levantaram uma das maiores nuvens de poeira que a Herdade da Casa Branca já viu. Entretanto, o tempo passou e os interesses musicais divergiram. Mesmo assim, na última edição do Super Bock Super Rock aproveitei para matar saudades. Notava-se claramente que os álbuns mais recentes já não tinham a força de outrora, mas a cada grande hit de sempre a assistência reagia como um furacão. Com a incontornável «Batata Frita» à cabeça.
Cheguei a conhecer o Ribas. Na altura, surpreendeu-me a sua simplicidade e honestidade. Com 30 anos de carreira ligado a bandas tão emblemáticas como os Ku de Judas, Censurados e Tara Perdida, a atitude descontraída que tinha em palco era exactamente a mesma que tinha à conversa com amigos, entre umas litrosas. Sem tiques de vedeta, fazia aquilo que mais gostava e dizia abertamente que estava a "cagar-se" para a pirataria. "O que me interessa é que a malta curta a música". Não podemos mais ver-te em palco, mas podemos continuar a curtir a tua música, Ribas. Obrigado por tudo e até sempre!

Gajas



«Love is to Die», Warpaint.

Esta não é apenas a faixa que mais vezes ouvi este ano. É também o cartão de visita do álbum homónimo das Warpaint, uma banda de quatro meninas californianas que editou no início deste ano o seu segundo disco. Confesso que depois de Exquisite Corpse, o fantástico EP de estreia que me deixou a salivar, tinha ficado algo desiludido com The Fool, o primeiro disco a sério editado no já longínquo ano de 2010. Ontem estive na Aula Magna para ver as meninas pela primeira vez. Como as mulheres rockeiras não são tão frequentes como isso e as bandas compostas exclusivamente por meninas ainda menos, há uma tendência para elogiar o rock no feminino só porque sim, quase com uma condescendência cavalheiresca. No caso dos Warpaint não é preciso, porque as meninas são mesmo muito boas naquilo que fazem.

Quinta-feira é o dia



«Amor Combate», Linda Martini.

Sigo os Linda Martini desde Olhos de Mongol. Na altura mudaram completamente a paisagem musical em Portugal. Com uma abordagem crua e violenta, estavam longe da sonoridade imediata que se ouvia. Talvez involuntariamente, foram uma espécie de porta-estandartes de uma nova geração do rock que surgiu a tocar e a cantar em português. Hoje, com três discos editados (Turbo Lento saiu no final de 2013, mas para mim Casa Ocupada continua a ser o melhor), o respeito da crítica e uma fiel legião de fãs, são praticamente uma instituição. Há quem lhes cole o rótulo de pós-rock, embora eles odeiem a expressão. Eu também não gosto. Todos os elementos partilham a passagem pelo hardcore e essa herança continua ainda presente, a vários níveis. E embora a sonoridade se tenha tornado mais polida, nunca perdeu o ímpeto de outros tempos. Inexplicavelmente, ao longo destes anos nunca surgiu oportunidade de os ver ao vivo. Até agora. Na próxima quinta-feira vou estar na cave do Lux para um concerto esgotadíssimo que promete ser memorável. Espero que não esqueçam as origens. Como este «Amor Combate».