Um Artista Americano

A história é digna do Malomil, mas só há dias é que cheguei até ela. Trata-se da história de Nat Tate, o grande pintor americano "perdido", que há poucos anos foi redescoberto. Segundo a biografia, Tate era uma figura respeitada da cena artística de Nova Iorque durante a década de 50. Com 31 anos, e depois de uma visita à Europa onde entrou em contacto com artistas cujo trabalho o assombrou profundamente, destruiu a maior parte da sua obra e acabou com a própria vida atirando-se do ferry de Staten Island. O seu corpo nunca foi encontrado. Uma retrospectiva da obra deste pintor atormentado foi publicada em 1998, com apresentação a cargo de David Bowie e Gore Vidal.

O único problema na história de Nat Tate... é que ele nunca existiu. Tudo não passou de uma invenção do argumentista britânico William Boyd, com a colaboração de diversos amigos (entre os quais David Bowie e Gore Vidal). Uma fraude criada com o objectivo de expor a ignorância do milieu artístico — no qual ninguém admitia desconhecer Nat Tate e alguns diziam até ter ouvido falar dele. A verdade foi revelada pouco tempo depois. O que não impediu que em 2011 um quadro de Nat Tate fosse leiloado pela Sotheby's em Londres.

À viagem com Hemingway

"— (...) Como vê, nós transformamos os nossos escritores numa coisa muito estranha.
— Não percebo.
— Destruímo-los de muitas maneiras. Primeiro economicamente. Ganham dinheiro. É apenas por acaso que um escritor ganha dinheiro. Então os nossos escritores, quando ganham dinheiro, elevam o seu nível de vida e estão tramados. Têm que escrever para sustentar a casa, a mulher e o resto e escrevem porcarias. Não escrevem porcarias de propósito, mas porque escrevem depressa. Porque escrevem quando não têm nada para dizer, quando não têm mais água no poço. Porque são ambiciosos. E depois, desde que se traíram uma vez, querem-se justificar e temos mais bodegas."

Ernest Hemingway
in "As Verdes Colinas de África".

Para ouvir com chuva lá fora



«Home», Daughter.

Há bandas que soam melhor em certas épocas do ano. Vi em tempos os Daughter num Coliseu apinhado, pertinho de uma Avenida da Liberdade onde se cruzavam castanhas assadas e chocolate quente, por ocasião do Vodafone Mexefest. Foi um concerto belo e inesquecível. Uns meses depois, numa noite quente de Verão, voltaram a Portugal para o recém-baptizado NOS Alive. A plateia estava repleta, mas não foi a mesma coisa. Os Daughter não são uma banda para o Verão, e muito menos para o Verão de Lisboa, feito de luz, de sons e de cheiros. Antes que este Verão se instale definitivamente, escutemo-los uma última vez.

Malapartismos (II)

"— Estávamos na margem do Ládoga — conta De Foxà —, na floresta de Ràikkola. Alguns sissit finlandeses tinham encontrado, numa trincheira russa, uma caixa cheia de uma espécie de gordura cinzento-escura. Um dia, o coronel Merikallio entra num korsu da primeira linha, onde alguns sissit estavam a engraxar as botas para a neve. O coronel Merikallio fareja o ar e diz: «Que estranho cheiro.» Era um cheiro a peixe. «É esta pomada para sapatos que cheira a peixe», diz um sissit, mostrando ao coronel uma caixa de lata. Era uma caixa de caviar.
— O caviar russo só serve para engraxar as botas — diz o governador com desprezo."
Curzio Malaparte
in Kaputt.

Uma Nova Esperança

Numa reviravolta inesperada, o Presidente da República vetou a revisão da Lei da Cópia Privada. Uma proposta de lei que se propunha taxar dispositivos de armazenamento digital usados para guardar documentos pessoais em nome de uma hipotética "compensação equitativa" era manifestamente injusta e absurda. Mesmo que fosse praticamente impossível encontrar alguém fora da órbita da Sociedade Portuguesa de Autores que defendesse esta tentativa de extorsão dos cidadãos, isso não impediu que fosse aprovada pela generalidade da bancada do PSD e CDS (com as honrosas excepções de João Rebelo e Michael Seufert do CDS). Os argumentos expostos na mensagem que acompanhou a decisão do Presidente da República são do mais elementar bom-senso e vão na linha das questões que vários grupos de cidadãos levantaram ao longo do processo de apresentação da Lei. Dá que pensar no que estarão a fazer no Parlamento os 130 deputados que votaram a favor desta Lei.

Miúdos e graúdos



«Echoing Green», Equations.

Há uns anos, Jorge Jesus envolveu-se numa polémica com André Villas-Boas, à época treinador do FC Porto, apelidando-o de miúdo em tom depreciativo e paternal. Passado uns meses, Villas-Boas dava uma lição de futebol ao Benfica de JJ. É um pouco o que se passa com estes Equations. Embora nem todos sejam do Porto, estes miúdos estão prontos para dar uma banhada a quem os encarar com paternalismo. Em «Hightower», um disco com produção de Luís Clara Gomes (aka Moullinex), mostram-se surpreendentemente maduros. A energia do disco é gerida com a mestria que faltava em «Frozen Caravels». A ânsia de mostrar tudo ao mesmo tempo foi substituída pela confiança de quem sabe esperar pelos momentos certos para jogar os seus trunfos. Esta segurança reflecte-se em palco, com arranjos e variações que acrescentam um brilho especial às canções (absolutamente demolidora a forma como terminaram o concerto na ZDB, com um outro interminável de «Ssssuuunnn»). Os miúdos cresceram e ao segundo disco arriscam-se a fazer um dos álbuns de 2015. O reconhecimento público é uma questão de tempo.

LennoX



"I haven’t been everywhere, but Portugal’s my favorite place I’ve ever been."

Malapartismos

«—  Papillon. C'est un joli nom: papillon — disse Alfieri com a sua voz estúpida e galante. — Observou que a palavra borboleta, em francês, é do género masculino, e em italiano do género feminino? On est très galant avec les femmes, en Italie.
Vous voulez dire avec les papillons — disse a princesa Von T.
— Em alemão — disse Dornberg —, a palavra borboleta também é do género masculino: der Schmetterling. Na Alemanha temos tendência para exaltar o género masculino.
Der Krieg, a guerra — disse a marquesa Theodoli.
Der Tod, a morte — disse Virginia Casardi.
— Em grego, a morte também é do género masculino: o deus Thanatos — disse Dornberg.
— Mas, em alemão — observei — , o Sol é do género feminino: Die Sonne. Não se pode compreender a história do povo alemão se não se tiver em mente que é a história de um povo para o qual o Sol é do género feminino.»
Curzio Malaparte
in Kaputt.