Uma Nova Esperança

Numa reviravolta inesperada, o Presidente da República vetou a revisão da Lei da Cópia Privada. Uma proposta de lei que se propunha taxar dispositivos de armazenamento digital usados para guardar documentos pessoais em nome de uma hipotética "compensação equitativa" era manifestamente injusta e absurda. Mesmo que fosse praticamente impossível encontrar alguém fora da órbita da Sociedade Portuguesa de Autores que defendesse esta tentativa de extorsão dos cidadãos, isso não impediu que fosse aprovada pela generalidade da bancada do PSD e CDS (com as honrosas excepções de João Rebelo e Michael Seufert do CDS). Os argumentos expostos na mensagem que acompanhou a decisão do Presidente da República são do mais elementar bom-senso e vão na linha das questões que vários grupos de cidadãos levantaram ao longo do processo de apresentação da Lei. Dá que pensar no que estarão a fazer no Parlamento os 130 deputados que votaram a favor desta Lei.

Miúdos e graúdos



«Echoing Green», Equations.

Há uns anos, Jorge Jesus envolveu-se numa polémica com André Villas-Boas, à época treinador do FC Porto, apelidando-o de miúdo em tom depreciativo e paternal. Passado uns meses, Villas-Boas dava uma lição de futebol ao Benfica de JJ. É um pouco o que se passa com estes Equations. Embora nem todos sejam do Porto, estes miúdos estão prontos para dar uma banhada a quem os encarar com paternalismo. Em «Hightower», um disco com produção de Luís Clara Gomes (aka Moullinex), mostram-se surpreendentemente maduros. A energia do disco é gerida com a mestria que faltava em «Frozen Caravels». A ânsia de mostrar tudo ao mesmo tempo foi substituída pela confiança de quem sabe esperar pelos momentos certos para jogar os seus trunfos. Esta segurança reflecte-se em palco, com arranjos e variações que acrescentam um brilho especial às canções (absolutamente demolidora a forma como terminaram o concerto na ZDB, com um outro interminável de «Ssssuuunnn»). Os miúdos cresceram e ao segundo disco arriscam-se a fazer um dos álbuns de 2015. O reconhecimento público é uma questão de tempo.

LennoX



"I haven’t been everywhere, but Portugal’s my favorite place I’ve ever been."

Malapartismos

«—  Papillon. C'est un joli nom: papillon — disse Alfieri com a sua voz estúpida e galante. — Observou que a palavra borboleta, em francês, é do género masculino, e em italiano do género feminino? On est très galant avec les femmes, en Italie.
Vous voulez dire avec les papillons — disse a princesa Von T.
— Em alemão — disse Dornberg —, a palavra borboleta também é do género masculino: der Schmetterling. Na Alemanha temos tendência para exaltar o género masculino.
Der Krieg, a guerra — disse a marquesa Theodoli.
Der Tod, a morte — disse Virginia Casardi.
— Em grego, a morte também é do género masculino: o deus Thanatos — disse Dornberg.
— Mas, em alemão — observei — , o Sol é do género feminino: Die Sonne. Não se pode compreender a história do povo alemão se não se tiver em mente que é a história de um povo para o qual o Sol é do género feminino.»
Curzio Malaparte
in Kaputt.

Voltar a casa

É isso mesmo.

O 25 de Abril foi bom porque antes não havia internet

Lembro-me de uma entrevista de Rui Ramos à revista Ler em que o historiador dizia que crescer na Margem Sul do Tejo tinha sido uma espécie de vacina contra o comunismo. Comigo aconteceu algo semelhante. Na escola primária, entre outras coisas, a professora dizia que «antes do 25 de Abril não se podia arrotar na rua» e que um dia, quando era miúda, esteve quase a ser presa pela PIDE depois de ser «apanhada a colher fruta no quintal do vizinho». É dela que me tenho lembrado nestes dias, ao ver a quantidade de barbaridades que se têm dito a propósito do regime a que o 25 de Abril pôs fim.

Duplopenso logo existo

Na última semana, o presidente-executivo da Mozilla foi forçado a demitir-se por em 2008 ter doado mil dólares para apoiar a Proposition 8, uma petição contra a legalização do casamento gay no estado da Califórnia. Independentemente da posição de cada um relativamente ao tema, Brendan Eich não matou ninguém, não roubou ninguém, não cometeu qualquer ilegalidade. Limitou-se a contribuir para uma campanha que tinha como objectivo levar a discussão pública, e de forma democrática, um tema polémico.
Vivemos numa época em pode ser perigoso ter convicções. Orwell tinha razão.