LennoX



"I haven’t been everywhere, but Portugal’s my favorite place I’ve ever been."

Malapartismos

«—  Papillon. C'est un joli nom: papillon — disse Alfieri com a sua voz estúpida e galante. — Observou que a palavra borboleta, em francês, é do género masculino, e em italiano do género feminino? On est très galant avec les femmes, en Italie.
Vous voulez dire avec les papillons — disse a princesa Von T.
— Em alemão — disse Dornberg —, a palavra borboleta também é do género masculino: der Schmetterling. Na Alemanha temos tendência para exaltar o género masculino.
Der Krieg, a guerra — disse a marquesa Theodoli.
Der Tod, a morte — disse Virginia Casardi.
— Em grego, a morte também é do género masculino: o deus Thanatos — disse Dornberg.
— Mas, em alemão — observei — , o Sol é do género feminino: Die Sonne. Não se pode compreender a história do povo alemão se não se tiver em mente que é a história de um povo para o qual o Sol é do género feminino.»
Curzio Malaparte
in Kaputt.

Voltar a casa

É isso mesmo.

O 25 de Abril foi bom porque antes não havia internet

Lembro-me de uma entrevista de Rui Ramos à revista Ler em que o historiador dizia que crescer na Margem Sul do Tejo tinha sido uma espécie de vacina contra o comunismo. Comigo aconteceu algo semelhante. Na escola primária, entre outras coisas, a professora dizia que «antes do 25 de Abril não se podia arrotar na rua» e que um dia, quando era miúda, esteve quase a ser presa pela PIDE depois de ser «apanhada a colher fruta no quintal do vizinho». É dela que me tenho lembrado nestes dias, ao ver a quantidade de barbaridades que se têm dito a propósito do regime a que o 25 de Abril pôs fim.

Duplopenso logo existo

Na última semana, o presidente-executivo da Mozilla foi forçado a demitir-se por em 2008 ter doado mil dólares para apoiar a Proposition 8, uma petição contra a legalização do casamento gay no estado da Califórnia. Independentemente da posição de cada um relativamente ao tema, Brendan Eich não matou ninguém, não roubou ninguém, não cometeu qualquer ilegalidade. Limitou-se a contribuir para uma campanha que tinha como objectivo levar a discussão pública, e de forma democrática, um tema polémico.
Vivemos numa época em pode ser perigoso ter convicções. Orwell tinha razão.

Somos Tara Perdida



Os Tara Perdida foram a banda sonora da minha adolescência. Conhecia todas as faixas, tinha as letras na ponta da língua. E vi tantos concertos que comecei a conhecer todas as variações das músicas ao vivo. Entre os momentos mais marcantes, lembro-me do concerto do Rock in Rio em 2006 onde entortei a cana do nariz no meio de um mosh, ou do inesquecível concerto na Incrível Almadense que deu origem ao DVD que condensa todos os grandes momentos musicais da banda. Lembro-me ainda do concerto no Sudoeste de 2007, quando os Tara Perdida eram já um fenómeno de massas, em que o mosh transbordava a tenda que dava abrigo ao palco secundário. Em jeito de compensação, no ano seguinte os Tara Perdida tiveram direito ao palco principal e levantaram uma das maiores nuvens de poeira que a Herdade da Casa Branca já viu. Entretanto, o tempo passou e os interesses musicais divergiram. Mesmo assim, na última edição do Super Bock Super Rock aproveitei para matar saudades. Notava-se claramente que os álbuns mais recentes já não tinham a força de outrora, mas a cada grande hit de sempre a assistência reagia como um furacão. Com a incontornável «Batata Frita» à cabeça.
Cheguei a conhecer o Ribas. Na altura, surpreendeu-me a sua simplicidade e honestidade. Com 30 anos de carreira ligado a bandas tão emblemáticas como os Ku de Judas, Censurados e Tara Perdida, a atitude descontraída que tinha em palco era exactamente a mesma que tinha à conversa com amigos, entre umas litrosas. Sem tiques de vedeta, fazia aquilo que mais gostava e dizia abertamente que estava a "cagar-se" para a pirataria. "O que me interessa é que a malta curta a música". Não podemos mais ver-te em palco, mas podemos continuar a curtir a tua música, Ribas. Obrigado por tudo e até sempre!

Gajas



«Love is to Die», Warpaint.

Esta não é apenas a faixa que mais vezes ouvi este ano. É também o cartão de visita do álbum homónimo das Warpaint, uma banda de quatro meninas californianas que editou no início deste ano o seu segundo disco. Confesso que depois de Exquisite Corpse, o fantástico EP de estreia que me deixou a salivar, tinha ficado algo desiludido com The Fool, o primeiro disco a sério editado no já longínquo ano de 2010. Ontem estive na Aula Magna para ver as meninas pela primeira vez. Como as mulheres rockeiras não são tão frequentes como isso e as bandas compostas exclusivamente por meninas ainda menos, há uma tendência para elogiar o rock no feminino só porque sim, quase com uma condescendência cavalheiresca. No caso dos Warpaint não é preciso, porque as meninas são mesmo muito boas naquilo que fazem.