Geração "Share"
No último dia de 2013 surgiu no Público um interessante artigo sobre a mudança de comportamento do público em concertos e festivais. É um fenómeno que se tem acentuado progressivamente nos últimos anos e que ganhou nova expressão com a proliferação das redes sociais. Há cada vez mais gente que encara um concerto como uma experiência social, o que acaba por ser terrivelmente irritante para quem gosta verdadeiramente de música. Não me esqueço do concerto de Beirut no Sudoeste em que, ao meu lado, um grupo de espanholas discutia animadamente pormenores da sua vida sentimental. Num concerto no último Vodafone Mexefest, em pleno Coliseu, uma rapariga entretinha-se a girar em seu redor um telemóvel em modo lanterna, o que lhe valeu reprimendas e ameaças. Em certos casos torna-se difícil ver o palco com a quantidade de smartphones no ar, e para quê? Para infestar o Youtube com milhares de vídeos sem qualidade? No meio desta mentalidade do «partilha o que sentes», será assim tão difícil desligarmo-nos de tudo o resto e assistir a um simples concerto?
Três irmãs
«My Song 5», HAIM.
Musicalmente, as HAIM foram uma das poucas coisas que realmente me surpreenderam em 2013. Composta por três irmãs californianas nascidas entre 86 e 91, a banda não tenta reinventar a roda: Days Are Gone é pop fresco, luminoso, descomprometido e tão afastado quanto possível das sonoridades enlatadas e formatadas que invadem actualmente as frequências das principais rádios. Pelo caminho a banda explora com mestria o imaginário da década de 90 (lembram-se da Shania Twain?), até porque os anos 90 parecem ser cada vez mais os novos anos 80. Esperei em vão que as meninas marcassem presença na última edição do Vodafone Mexefest, mas talvez em 2014 as HAIM pisem o nosso país a convite de algum dos inúmeros festivais de Verão, já que a banda é considerada uma das grandes promessas para o ano que agora começou.
Entretanto, no Museu Nacional de Arte Antiga
Ela tem à sua frente um Tesouro Nacional mas só está interessada em ler emails no iPhone.
Discos de 2013
Há quem não goste, mas fazer listas é um exercício saudável. Há umas semanas, o Pedro Mexia escreveu sobre isso no suplemento do Expresso, o que acabou por me levar a procurar umas listas dos meus discos de 2009 e 2010. O reencontro teve a sua piada. Curiosamente, continuo a regressar com regularidade a muitos dos álbuns. Outros envelheceram menos bem. Há até discos que não sei muito bem o que me levou a incluí-los. Mesmo correndo esse risco, o meu top de 2013 é o seguinte:
- Arcade Fire - «Reflektor»
- Arctic Monkeys - «AM»
- James Blake - «Overgrown»
- Linda Martini - «Turbo Lento»
- Daft Punk - «Random Access Memories»
- Foals - «Holy Fire»
- Márcia - «Casulo»
- Queens Of The Stone Age - «...Like Clockwork»
- Daughter - «If You Leave»
Da gazela ao impala vai um salto
«Maneiras Más», Capitão Fausto.
Em Portugal faz-se muita música nova, mas nem sempre as coisas têm grande continuidade. São frequentes os casos de bandas com sucesso extemporâneo que não vão além do primeiro disco (por vezes nem isso). Os Capitão Fausto tinham os ingredientes certos para ser mais um desses efémeros projectos musicais. No entanto, o que têm feito depois de Gazela pode atirá-los para outros planos. Nos concertos têm ensaiado novos caminhos, que entre diversas referências remetem invariavelmente para o psicadelismo dos Tame Impala. Os singles de apresentação do novo disco, que depois de sucessivos adiamentos tem lançamento previsto para Janeiro sob o título Pesar o Sol, apontam na mesma direcção e revelam uns Capitão Fausto surpreendentemente maduros. Depois da «Célebre Batalha de Formariz», temos agora «Maneiras Más». Daqui a um mês conversamos.
O sonho substitui tudo
"O esforço é inútil, mas entretém. O raciocínio é estéril, mas é engraçado. Amar é maçador, mas é talvez preferível a não amar. O sonho, porém, substitui tudo. Nele pode haver toda a noção do esforço sem o esforço real. Dentro do sonho posso entrar em batalhas sem risco de ter medo ou de ser ferido. Posso raciocinar, sem que tenha em vista chegar a uma verdade a que me doa que nunca chegue; sem querer resolver um problema, que veja [que] nunca resolvo; sem que (...) Posso amar sem sem recusarem ou me traírem, ou me aborrecerem. Posso mudar de amada e ela será sempre a mesma. E se quiser que me traia e se me esquive, tenho às ordens que isso me aconteça, e sempre como eu quero, sempre como eu o gozo. Em sonho posso viver as maiores angústias, as maiores torturas, as maiores vitórias. Posso viver tudo isso tal como se fora da vida: depende apenas do meu poder em tornar o sonho vívido, nítido, real. Isso exige estudo e paciência interior.Fernando Pessoa
[...] A melhor maneira de começar a sonhar é mediante livros. Os romances servem de muito para o principiante. Aprender a entregar-se totalmente à leitura, a viver absolutamente com as personagens de um romance, eis o primeiro passo. Que a nossa família e as suas mágoas nos pareçam childras e nojentas ao lado dessas, eis o sinal do progresso."
in "Livro do Desassossego", Relógio de Água.
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