Geografia da ignorância

O Buzzfeed desafiou vários norte-americanos a identificar num mapa os países que compõem a Europa. Os resultados são hilariantes, mas não tão desastrosos como se poderia imaginar. Há muito disparate na zona dos Balcãs e das antigas repúblicas soviéticas, mas é muito curioso que a maior parte dos inquiridos consegue identificar Portugal. Conhecendo as ideias feitas que existem por cá a propósito da ignorância dos americanos, seria interessante sujeitar um grupo de portugueses ao mesmo teste.

A caminho da dominação global



«Afterlife», Arcade Fire.

Para mim, os Arcade Fire são um amor antigo. A minha banda preferida dos anos zero. Com um fervor activista vibrei com a força de Funeral, a abundância de Neon Bible, a introspecção de Suburbs. Vi-os transformar-se em fenómeno de massas. Não pude por isso ficar indiferente ao anúncio da actuação no próximo Rock in Rio em Lisboa. Fiquei triste, porque o circo da Bela Vista não me diz muito, mas compreendo que os Arcade Fire são hoje uma grande banda pop, uma das poucas bandas de estádio numa época de nichos e pulverização de tendências culturais. Não se venderam, mas como é legítimo para qualquer banda querem conquistar o mundo. A colaboração com David Bowie no primeiro single do novo disco não quer dizer outra coisa. De qualquer forma, Reflektor é um excelente álbum. Arriscado, porque actualmente não é qualquer banda que edita um trabalho com quase 90 minutos e várias faixas com duração superior a 6 minutos. Ainda assim, como habitualmente, os Arcade Fire reinventam-se sem abdicar da sua matriz e, acima de tudo, sem desiludir. O vídeo é de «Afterlife» e conta com imagens do filme brasileiro Orfeu Negro, de 1959, que o vocalista Win Butler confessa ter sido uma das principais influências na elaboração de Reflektor.

Estreia de Natal



Já circula o trailer de Nymphomaniac, a mais recente aventura de Lars von Trier. Aparentemente, é o encerramento da trilogia composta por Antichrist e Melancholia. Volta a contar com Charlotte Gainsbourg como protagonista, juntamente com um elenco de jovens promessas e actores consagrados. No entanto, como não podia deixar de ser, o filme tem estado envolvido em polémica. Por conter cenas de sexo explícito (o que não é propriamente uma novidade nas obras do realizador dinamarquês), ainda não se sabe ao certo em que formato Nymphomaniac vai estrear nos cinemas. Numa fase inicial estariam previstas duas versões (uma explícita e outra mais soft), mas recentemente von Trier desistiu da montagem da versão comercial, recusando encurtar o filme, que na versão original tem mais de cinco horas (!) de duração. Para já, o trailer — que conta com o rock industrial dos Rammstein —, foi retirado do Youtube, devido ao seu conteúdo. Seja como for, o filme tem estreia agendada para o próximo dia 25 de Dezembro em Copenhaga.

Roubaram-me o coração

Desapareceram-me dois livros da estante. Assim que dei conta virei o quarto do avesso, sem sucesso. Dei voltas à cabeça e tenho a certeza que não emprestei nenhum dos livros. O mais estranho é que os livros partilham parte do título: «O Coração das Trevas» e «O Coração Aventuroso», de Conrad e Jünger. O desaparecimento faz-me estabelecer ligações entre os dois livros. Parece uma partida dos deuses.

50 cópias de Grey

Quem frequenta livrarias já sabe como a coisa funciona. De tempos a tempos um fenómeno de vendas faz com que as livrarias se vejam inundadas de edições semelhantes, na maior parte das vezes cópias descaradas de qualidade ainda mais duvidosa. Já foram os contos com dragões, os policiais nórdicos, os romances com vampiros. Agora é a vez da literatura erótica com laivos de sado-masoquismo. Nada contra. Cada um lê o que quer e mais vale ler as «50 Sombras de Grey» do que não ler nada. No entanto, como alerta o António Araújo no Malomil, «uma livraria tem um espaço físico limitado, pelo que quanto mais invadida for por este lixo menos sobra para coisas que valham a pena. Experimentem entrar numa livraria para ver o que para ali vai de porcaria».

Tudo se resume a isto

«A man must have a code.»

Processo de Domesticação em Curso



«Bitter Rivals», Sleigh Bells.

Em 2009 os Sleigh Bells surpreenderam com Treats, noise corrosivo e anguloso, produzido apenas por uma guitarra distorcida, uma caixa de ritmos endiabrada e a postura provocadora e descomplexada da vocalista Alexis Krauss. Já lá vão cinco anos. Ao terceiro disco, a sonoridade do duo de Brooklyn está cada vez mais polida e elaborada. Se é verdade que o som dos Sleigh Bells mantém os elementos que o distinguia, a agressividade juvenil parece temperada por uma abordagem crescentemente pop. Uma tendência que já vinha de Reign of Terror, mas que agora é claramente assumida no single que dá nome ao álbum. Os Sleigh Bells estão mais maduros e isso não é necessariamente mau. Só é pena não se encontrar neste disco a energia selvagem de um «Crown On The Ground», faixa que Sofia Coppola usou apropriadamente para o genérico de Bling Ring.

A Persistência da Memória


El secreto de sus ojos, Juan José Campanella (2009).