As palavras dos outros (VI)

«Há razões para protestar e exigir outras políticas. Pagamos muitos impostos e não percebemos o que está a ser feito para que deixe de ser assim. Mas devemos apanhar o primeiro autocarro, sem perguntar para onde vai? Em Setembro, durante a crise da TSU, a revolta pareceu fresca e original. Depois, o bafio da manipulação sectária impregnou tudo. Ouvimos as velhas palavras de ordem do PREC, vimos as agressões e as provocações típicas da “luta”. Há ainda lugar para a inocência? Protestar é uma coisa. Outra coisa é fazer de “idiota útil”».

Rui Ramos
in Expresso, 2 de Março de 2013.

«E eu sou doutro lado»


«Forasteiro», Samuel Úria.

Lisboa

"O hotel, que humildemente preferia autodenominar-se pensão, era um antigo convento, um daqueles locais que os ingleses adoram. Para lá chegar, Merridew teve de escalar uma escadaria de pedra tapada por videiras e, tendo-a escalado e dado uma primeira olhadela curiosa, apressou-se a descê-la para ir dizer a Brock que corresse — «mas corre mesmo!» — ao café da esquina e ligasse para Ned. Depois, escalou de novo a escadaria, razão por que se sentia tão ofegante e ainda mais maltratado que o costume. Cheiros de terra molhada e café acabado de moer misturavam-se com as fragrâncias nocturnas das plantas. Merridew não as sentia. Faltava-lhe o ar. O soluçar dos eléctricos distantes e o grasnar dos barcos eram os únicos sons de fundo para o monólogo de Barley. Merridew não se apercebia desses sons".

John le Carré
in "A Casa da Rússia".

Indignocracia

Se há coisa que o caso Pêpa e o caso Zico nos ensinam é que o bom senso está hoje em vias de extinção.

A indignação está na moda (II)

Se as associações académicas e de estudantes fossem mais do que simples trampolins para malta das jotas, poderiam fazer algo mais do que protestar contra os cortes na Acção Social e o eventual aumento das propinas. É certo que a indignação é mais simples e garante maior retorno mediático, mas situações de emergência exigem soluções de emergência. Nos anos 50, por exemplo, a Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST) geria uma Caixa de Empréstimos de Honra e Subsídios, que «constituía um importante mecanismo de apoio social aos associados mais carenciados, mediante a concessão de empréstimos» isentos de juros. Embora a única garantia fosse a assinatura de um compromisso de honra, de forma geral os beneficiários cumpriam. Até porque, segundo um antigo dirigente, «as pessoas sabiam que se não cumprissem, prejudicavam outros». No ano lectivo de 1953/54, os beneficiários ultrapassavam 10% do total de alunos inscritos no IST. Actualmente existem bolsas de Acção Social, embora não abranjam todos os estudantes em dificuldades. Quantos poderiam encontrar solução num mecanismo deste tipo?

As palavras dos outros (V)

"Em 2016, eis um cenário muito possível: Angola manterá a ortografia existente anterior ao “Acordo”. Portugal seguirá, se não conseguir inverter o statu quo, o pobre “acordês”. E o Brasil terá entretanto revisto e certamente “melhorado” o “Acordo”, escrevendo numa terceira ortografia. Resumindo: cada qual escreverá de sua maneira".

Helena Buescu
in Público, 8 de Janeiro de 2013.

Olá 2013



«Inhaler», Foals.

A indignação está na moda

Hoje foi um grupo de estudantes, acompanhado de um deputado do Bloco de Esquerda, que ocupou a cantina da Universidade de Lisboa na Avenida das Forças Armadas, em protesto contra o anunciado encerramento das instalações. É o regresso ao Fascismo e à Educação reservada para os ricos? Não. Parece que «oito em cada dez alunos que usufruem de uma das cantinas da Universidade de Lisboa (UL) pertencem à instituição vizinha, ao Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE)», do Instituto Universitário de Lisboa (IUL). Nem está em causa a incompreensível existência de quatro (4!) universidades públicas em Lisboa, cada uma com os seus próprios Serviços de Acção Social (SAS). Acontece que os SAS da Universidade de Lisboa estiveram anos a fio, e até agora, a subsidiar um serviço utilizado por estudantes de outra escola. Parece fazer todo o sentido que a cantina seja encerrada, de forma a que os recursos sejam direccionados de forma mais eficiente para os alunos da instituição. Parece? Pelos vistos, há quem não compreenda. Ou não queira compreender.