"O hotel, que humildemente preferia autodenominar-se pensão, era um antigo convento, um daqueles locais que os ingleses adoram. Para lá chegar, Merridew teve de escalar uma escadaria de pedra tapada por videiras e, tendo-a escalado e dado uma primeira olhadela curiosa, apressou-se a descê-la para ir dizer a Brock que corresse — «mas corre mesmo!» — ao café da esquina e ligasse para Ned. Depois, escalou de novo a escadaria, razão por que se sentia tão ofegante e ainda mais maltratado que o costume. Cheiros de terra molhada e café acabado de moer misturavam-se com as fragrâncias nocturnas das plantas. Merridew não as sentia. Faltava-lhe o ar. O soluçar dos eléctricos distantes e o grasnar dos barcos eram os únicos sons de fundo para o monólogo de Barley. Merridew não se apercebia desses sons".
Se as associações académicas e de estudantes fossem mais do que simples trampolins para malta das jotas, poderiam fazer algo mais do que protestar contra os cortes na Acção Social e o eventual aumento das propinas. É certo que a indignação é mais simples e garante maior retorno mediático, mas situações de emergência exigem soluções de emergência. Nos anos 50, por exemplo, a Associação dos Estudantes do Instituto Superior Técnico (AEIST) geria uma Caixa de Empréstimos de Honra e Subsídios, que «constituía um importante mecanismo de apoio social aos associados mais carenciados, mediante a concessão de empréstimos» isentos de juros. Embora a única garantia fosse a assinatura de um compromisso de honra, de forma geral os beneficiários cumpriam. Até porque, segundo um antigo dirigente, «as pessoas sabiam que se não cumprissem, prejudicavam outros». No ano lectivo de 1953/54, os beneficiários ultrapassavam 10% do total de alunos inscritos no IST. Actualmente existem bolsas de Acção Social, embora não abranjam todos os estudantes em dificuldades. Quantos poderiam encontrar solução num mecanismo deste tipo?
Entrou formosa e não segura, com o Castelo de São Jorge como pano de fundo. De semblante fechado, enrolada num espesso casaco, não perdeu tempo com grandes palavras de circunstância. Mas as luzes, as sombras e o fumo adequavam-se bem à música do grupo de Brooklyn, e Lizzy foi ganhando confiança. Além disso, o público de Lisboa sabia bem o que esperar dos MS MR. À medida que a actuação avançava, Lizzy despiu o casaco, mostrou uns sorrisos, desprendeu-se, arriscou algumas palavras de agradecimento. Ao fim da noite, depois de «Hurricane», a vocalista parecia outra. Dona do palco, com um sorriso de orelha a orelha, confessava não ter o hábito de fazer encores. Por vezes são as bandas que se rendem ao público e não o contrário.
Bradley Wiggins não tem a liderança natural de Armstrong, o carisma de Pantani ou a fúria tranquila de Contador. Não é um grande trepador nem pedala de forma particularmente espectacular. Alguns dizem que é snob, outros acusam-no de ser uma fria máquina de pedalar, formado na monotonia do ciclismo de pista. Ainda assim, Wiggins já garantiu o seu lugar na história do ciclismo de estrada, não só por se ter tornado o primeiro britânico a ganhar um Tour de France, mas principalmente pelo feito único de conquistar, no mesmo ano, o Ouro olímpico (em contra-relógio) e a Volta a França.
De facto, Wiggins é um autêntico anti-herói. Ao longo do último Tour, muitos foram os que puseram em causa a sua capacidade de vencer a prova. O maior desafio surgiu do companheiro que era suposto protegê-lo dos mais directos ataques adversários, Christopher Froome, e que por diversas vezes pareceu estar mais preparado para os rigores das subidas do que o próprio chefe de fila. A certa altura, embalado pelas especulações da imprensa, Froome pareceu contrariar as indicações da direcção da equipa e ensaiou um ataque ao líder, para logo a seguir recuar. Sem convencer, Wiggins acabou por vencer e chegar de amarelo a Paris.
O documentário Bradley Wiggins A Year In Yellow, acompanha o ciclista britânico ao longo de 2012, onde para além do Tour e dos Jogos Olímpicos, venceu ainda provas emblemáticas como o Paris-Nice e o Critérium du Dauphiné (sem esquecer o terceiro lugar na Volta ao Algarve, que não é mencionado no vídeo). Como é cliché neste tipo de trabalhos, o documentário mostra o outro lado do campeão, revelando um Wiggins humilde e tímido, longe do luxo e da exuberância de tantos outros, mas obstinado com o ciclismo. Homem de família, mas ainda atormentado pelo abandono do pai quando era criança. Um pai que mal conheceu e que morreu em circunstâncias estranhas, acompanhado de um caderno com recortes dos êxitos do filho. Um documentário com imagens magníficas, para todos os que gostam de ciclismo e não só.