As palavras dos outros (IV)

"Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar."

Pedro Mexia
in Expresso, 1 de Dezembro de 2012.

Assim se vê a força do PC

Por ocasião do Congresso do PCP, a edição impressa do Expresso registou o regresso do partido a certos chavões «que nos últimos anos haviam tido menos uso — como a "luta de massas" ou a "socialização dos principais meios de produção e circulação"». Só quem anda distraído pode ficar surpreendido por este back to basics do PCP, como lhe chama o semanário. Desde 2009 que o partido tem vindo a reabilitar, timidamente, a sua iconografia tradicional, juntamente com certas imagens e slogans. Perante a grave situação de crise e incerteza que o país atravessa, o PCP vai ajustando o seu posicionamento, na expectativa de uma redefinição do jogo eleitoral, que tanto baralhou as contas na Grécia. Afinal, o PCP é a força política mais estruturada, organizada e disciplinada neste país. Henrique Raposo, na sua coluna do Expresso da semana passada, afirmava que o PCP ficou preso na «cultura sectária de Álvaro Cunhal», em oposição à «atitude democrática dos eurocomunistas» do PCI/PCF/PCE. É que para o PCP, a Democracia, tal como é concebida no Ocidente, nunca foi uma convicção, mas uma imposição. Esquece-se Henrique Raposo que, apesar de tudo, a estratégia do PCP resultou. Enquanto a abertura do PCI/PCF/PCE teve como resultado a extinção ou a irrelevância, em Portugal os comunistas continuam aí para as curvas, com uma bancada consolidada no Parlamento, o domínio do aparelho sindical, um considerável território autárquico e uma Festa que já entrou no calendário dos Festivais de Verão. Sobreviveu à queda do Muro de Berlim e parece contrariar os que apontavam o Partido como uma excentricidade lusitana e um anacronismo condenado a uma lenta mas irreversível dissolução. Como se viu este fim-de-semana em Almada, o PCP está de boa saúde. E a sua mensagem vai endurecendo.

Força Delta



«Taro», Alt-J.

Em comparação com tempos recentes, 2012 tem sido um ano extraordinariamente pobre em música nova. De um modo geral, as coisas novas que vão surgindo reflectem influências demasiado vincadas, num exercício de replicação e reciclagem muito pouco estimulante. Ainda assim, uma das boas surpresas deste ano são os Alt-J, uma banda com um terrível nome mas uma sonoridade intrigante que desafia a catalogação. É verdade que às primeiras audições tudo parece demasiado estranho e deslocado, mas à medida que se ouve An Awesome Wave, as peças vão encaixando para revelar uma magnífica engrenagem. Não é à toa que a banda levou para casa o Mercury Prize deste ano para o melhor disco do Reino Unido. Entretanto, para os interessados, os Alt-J estarão por Lisboa na próxima sexta-feira, para mais uma edição do Vodafone Mexefest.

Revolução Cultural

Após encerrar as suas três lojas na Grécia, a FNAC prepara-se para abandonar Itália. No entanto, segundo  a filial portuguesa, "a notícia do encerramento da FNAC italiana não terá qualquer implicação na estrutura e no plano de expansão da FNAC em Portugal". Podemos dormir descansados. Afinal, ao nível de vendas, Portugal representa o terceiro mercado do grupo, à frente de países como a Bélgica e a Suíça. Uma verdade inconveniente é que a FNAC fez mais pela cultura no nosso país do que muitos subsídios ao teatro, às artes e às «performances». Muitos queixam-se da forma agressiva como esta rede entrou em Portugal, com uma política de esmagamento de preços que exterminou quase toda a concorrência, ao ponto de actualmente em Lisboa subsistir apenas uma mão cheia de pequenas lojas dedicadas à venda de música. Ainda assim, a FNAC veio revolucionar o acesso aos bens culturais, com uma rede descentralizada de lojas a disponibilizar uma grande variedade de literatura, música e cinema, a preços razoavelmente competitivos. Hoje, um adolescente de Viseu pode adquirir facilmente «O Coração das Trevas» de Conrad, por 9,90 euros. Haverá melhor exemplo do que este?

Sem pés nem cabeça


Oliver Stone sempre foi um realizador moralista, no sentido de fazer dos seus filmes autênticas lições para os espectadores. Essa tendência para a pedagogia não o impede de ser um grande realizador, responsável por autênticos clássicos como «JFK» e «Platoon». No entanto, em «Savages», o último filme de Stone, é difícil encontrar alguma ideia, quanto mais lições. Numa aparente mas confusa condenação da War on Drugs, dois traficantes independentes de Laguna Beach — um deles doutorado em Biologia, cheio de boas intenções e muitos projectos para ajudar os pobrezinhos do Terceiro Mundo, e o outro ex-militar das forças especiais endurecido por várias comissões no Afeganistão — partilham uma miúda rica num bizarro triângulo amoroso, e são forçados a fazer frente a um cruel cartel mexicano. O problema é que tudo é feito sem pés na cabeça, numa história que desafia constantemente a lógica e a própria compreensão, com actores em permanente overacting e personagens menos credíveis que vilões de séries televisivas dos anos 80. Tudo embrulhado em filtros à CSI e muita acção literalmente desmiolada. No fim do filme, após um inevitável mas inexplicável happy ending de domingo à tarde, é difícil perceber o que Stone queria fazer com este filme. Ou «Savages» é produto de tarefeiro ou Oliver Stone está definitivamente a perder qualidades.

Há enganos e enganos

É curiosa a cobertura que a imprensa portuguesa deu ao engano do jornal chinês People's Daily, que publicara uma notícia do satírico The Onion nomeando Kim Jong-Un como o "Homem Mais Sexy do Mundo de 2012". Quando uma notícia falsa do satírico Daily Currant publicada na página do suplemento Dinheiro Vivo, do Diário de Notícias e Jornal de Notícias, invadiu as redes sociais dando conta que George W. Bush tinha votado por engano em Barack Obama nas últimas eleições americanas, os jornais portugueses esqueceram-se de apontar e ridicularizar a falha. Ou talvez seja mais fácil fazer pouco dos chineses.

Novembro

Diz-se que a História é escrita pelos vencedores. No caso do 25 de Abril, a narrativa dá pouco espaço a outras interpretações e qualquer discussão resvala invariavelmente para a acusação e o mais básico insulto. É nesse contexto que surge «Novembro», o mais recente livro de Jaime Nogueira Pinto, um romance que tem como pano de fundo o período entre o Verão de 1973 e o 25 de Novembro de 1975. Outro romance sobre o 25 de Abril? Não. Ao contrário de tantos outros livros, «Novembro» foca-se no outro lado da Revolução, constituindo um poderoso retrato de como as direitas viveram o 25 de Abril.

«Novembro» vira o tabuleiro do avesso. Baseado na experiência pessoal de Jaime Nogueira Pinto, o livro acompanha o percurso de diversas personagens à direita do regime através das datas marcantes da Revolução: não só o 25 de Abril mas também as prisões do 28 de Setembro, a intentona/inventona de 11 de Março, o Verão Quente, a independência africana de 11 de Novembro e finalmente o Thermidor de 25 de Novembro. É um livro escrito na perspectiva dos vencidos. Daqueles que sonhavam com um outro Portugal, que procuraram salvar o possível no naufrágio da Descolonização, que foram remetidos ao silêncio e à prisão pela voragem da Revolução. E que depois de tudo foram arrumados nas recônditas gavetas da História. «Os retardadores», como diz Henrique num dos parágrafos-chave desta história, numa expressão que poderia dar o título a este livro. Em paralelo com a acção política, desenvolvem-se três histórias de amor bem distintas, mas que acabam por se entrelaçar bem com o resto da história. Embora seja uma obra de ficção, a narrativa mantém uma forte ligação à realidade. Grande parte dos episódios tiveram realmente lugar, acontecendo o mesmo com a maior parte das personagens, mesmo quando têm outros nomes ou simplesmente não são identificadas.

Trata-se da primeira incursão de Jaime Nogueira Pinto na ficção, mas nem por isso o livro perde brilho. Antes pelo contrário, «Novembro» está muito bem construído e estruturado, com uma escrita fluída e um estilo apaixonado mas sereno. Com diversas camadas de leitura, o livro conta com uma fascinante e complexa galeria de personagens. «Novembro» é uma brilhante história de combate político e de luta pela sobrevivência, de paixões e conspirações, de revoluções sonhadas e impérios desfeitos. Um livro que fazia falta. No meio de tudo, lamenta-se apenas o muro de silêncio com que o lançamento do livro esbarrou, talvez sinal de um país que ainda não superou o fardo de Abril. Ainda assim, não deixa de ser um dos melhores romances publicados em 2012.

Opinião livre

O Público estreou uma nova página na internet. O aspecto gráfico está mais actual e a estrutura mais intuitiva e funcional, mas a principal surpresa é a página permitir a leitura integral da secção de Opinião do jornal. Incluindo as colunas de Vasco Pulido Valente e Miguel Esteves Cardoso. Desconhece-se se é uma medida temporária, se faz parte das funcionalidades da nova página ou se é simplesmente um engano. Seja como for, é de aproveitar. E nada melhor do que começar por ler o elogio de Miguel Esteves Cardoso ao restauro da estátua de D. José I no Terreiro do Paço.

Adenda: Afinal, foi sol de pouca dura. A leitura dos principais colunistas foi restringida aos assinantes do jornal.