Dead Combo



«Esse Olhar Que Era Só Teu», Dead Combo.

O Fado é muito mais do que uma voz lúgubre ou o dedilhar de uma guitarra portuguesa. É um espírito, ultrapassa estilos e géneros, e pode viver nas paragens mais inesperadas. No caso dos Dead Combo é talvez a maior referência, embrenhada numa série de influências aparentemente inconciliáveis, do western-spaghetti ao tango argentino e à morna cabo-verdiana. Conheci-os em 2008, um pouco antes de Lusitânia Playboys. Durante muito tempo, tempo demais, foram um dos segredos mais bem guardados da música portuguesa. Não tão bem guardado quanto isso, porque os concertos iam enchendo, como naquela noite memorável no Tivoli, no Vodafone Mexefest do ano passado, em que a sala abarrotou para ouvir as melodias da dupla, no meio de uma aura enigmática e fantasmagórica. No entanto, a consagração pública só chegou este ano, depois de servirem de banda sonora a No Reservations, acompanhando Anthony Bourdain na descoberta da gastronomia de Lisboa. Como sempre, foi preciso um estrangeiro elogiar uma coisa nossa para repararmos nela. É o nosso fado.

Dia de vitória

Quem ontem atravessasse Lisboa de carro, dificilmente acharia que não se tratava de um dia normal. Comércio a funcionar e um pouco mais de trânsito do que o costume, mas tudo normal. O país esteve muito longe de parar. É o sinal mais evidente de que a Greve Geral — definida como paralisação concertada de actividades a nível nacional — falhou redondamente. Enquanto isso, às portas de São Bento, Arménio Carlos arengava sobre a grande vitória dos trabalhadores numa das «maiores greves gerais realizadas em Portugal». O costume. Seguiu-se o Carnaval habitual, com algumas dezenas de encapuçados a desafiar a polícia. Ao longo das últimas manifestações têm esticado a corda, com os desafios a subirem de tom. Desta vez tiveram finalmente o que queriam. Aos insultos e provocações, aos petardos, garrafas e pedras atirados, a polícia respondeu com a tão ansiada carga. Jornalistas em delírio, perseguição até ao Cais do Sodré, ensaios de barricadas, ecopontos a arder. Nas atitudes também se nota alguma evolução. Parece que os anarquistas deixaram finalmente de choramingar quando são agredidos pela polícia. Quase parece que estamos na Europa. Ao fim do dia, todos ganharam: CGTP, manifestantes, jornalistas. Até a polícia. Quanto ao país, não se sabe. Mas isso também não interessa nada.

Ruínas



«Não Sei Desenhar Barcos», Filho da Mãe.

Há quem o conheça como guitarrista dos If Lucy Fell, banda próxima do pós-hardcore. Mas a solo, Rui Carvalho é Filho da Mãe. E quando se diz a solo, neste caso é mesmo sozinho. Apenas com uma guitarra acústica e uns pedais. A sua arte é fazer a guitarra cantar, sobrepondo sequências, usando e abusando desses loops até parecer estarmos a ouvir quatro ou cinco músicos em conjunto. A alma é portuguesa, com certeza. A melancolia que transparece nas canções às vezes parece nostalgia, outras apenas um desencanto descomprometido. Um pouco como o país, um pouco como o poema de Pessoa que dá título a este blogue.

Até ao Fim

«Até ao Fim : Destruição e Derrota da Alemanha de Hitler 1944-1945» é a última obra de Ian Kershaw, historiador britânico celebrizado pela biografia Adolf Hitler. Como um dos maiores especialistas na história do III Reich, Kershaw apontou neste livro à eterna questão de todos os que estudam a II Guerra Mundial: como é que a Alemanha manteve a sua coesão e aparente organização ao longo do último ano do conflito, e especialmente nos derradeiros dias com grande parte do território sob ocupação e os russos às portas da chancelaria em Berlim? Não é só a tenacidade da resistência militar alemã perante a esmagadora superioridade dos Aliados que surpreende. A manutenção da normalidade no funcionamento das instituições, mesmo sob terríveis bombardeamentos e o avanço constante do inimigo, é ao mesmo tempo assustadora e admirável. Não houve colapso até ao fim e Kershaw propõe diversas explicações. Se por um lado a imposição dos Aliados de uma "rendição total e incondicional" excluiu à partida qualquer tentativa de negociação e reforçou a radicalização do regime, por outro a existência de diversos poderes abaixo do Führer que competiam e se sobrepunham entre si (o Estado, o Partido, os Gauleiter, a Wehrmacht, as SS) criava um sistema com diversos graus de redundância. A esse nível, o exemplo da reacção alemã ao bombardeamento de Dresden em Fevereiro de 1945, já nos meses finais do conflito, descrito por Kershaw, é paradigmático:
"Mesmo nesta fase tardia da guerra e no caos da cidade em ruínas, o regime demonstrou uma capacidade notável para improvisar uma resposta de emergência. Foram enviadas equipas de assistência para Dresden na manhã a seguir ao ataque. Dois mil soldados e mil prisioneiros de guerra, juntamente com equipas de reparações de outras cidades da região, foram enviados de imediato. Criou-se um posto de comando e um sistema de comunicações para coordenar o trabalho. Três dias depois, estavam já a ser distribuídas seiscentas mil refeições quentes por dia. Foi declarada a lei marcial e os saqueadores detidos e, em muitos casos, executados sem demora. A terrível tarefa de recolher os cadáveres carbonizados começou, em parte, a cargo de prisioneiros de guerra. Com precisão burocrática, as autoridades da cidade recolheram e contaram os cadáveres. Mais de dez mil foram sepultados em valas comuns e nos arredores da cidade".
Embora a sua escrita seja fluída e cativante, Kershaw não resiste a um certo pendor ideológico, recorrente em obras deste género. Seja classificando os sabotadores do esforço de guerra alemão como "corajosos" para pouco depois apontar a "lógica perversa" dos generais que cumpriam as ordens militares de Hitler, seja acusando os líderes menos comprometidos com o regime (como Speer) de terem-se empenhado para prolongar ao máximo a capacidade industrial e militar do país, como se não fosse esse o seu dever. Ainda assim, este livro reflecte um monumental trabalho de pesquisa, com inúmeras referências a diários, correspondência e relatórios, que dão uma imagem vívida do complexo mosaico que era a sociedade alemã durante a guerra. Lamenta-se apenas a ausência de quaisquer referências às acções ou registos de voluntários estrangeiros que lutaram sob a bandeira do Alemanha nacional-socialista (recorde-se que 368 000 voluntários estrangeiros combateram pelas Waffen-SS, sem contar com os estrangeiros colocados no Exército regular como os espanhóis da Divisão Azul, um número impressionante quando comparado aos 35 000 das Brigadas Internacionais da Guerra Civil de Espanha).
Há quem diga que já tudo foi escrito sobre o III Reich. Este livro, com as suas mais-valias e defeitos, confirma que a distância temporal é fundamental para retratar esta época da História sem preconceitos e desvios ideológicos.

América

Nos Estados Unidos da América, hoje é dia de eleições. Um tema fascinante que assegura horas e horas de análise e discussão, tal é a complexidade do processo eleitoral e o número de variáveis em causa. Ainda para mais numa eleição que se prevê a mais renhidas das últimas décadas. E em Portugal? Por cá o tema é tratado com a simplicidade habitual. Obama é fixe, é justo, diz coisas bonitas e bebe cerveja com os seus apoiantes. É o candidato do "Hope" e do "Change", vai aos late nights da moda, é apoiado pelos actores, pelos artistas e pelos pobrezinhos. Já Romney é mórmon, é milionário e não percebe porque é que os vidros dos aviões não abrem. É um palhaço e um ignorante. E é milionário. É apoiado pelos ricos, pelos racistas, pelo Tea Party, pelo Tea Party, pelo Tea Party, pelo Ku Klux Klan e pelos fundamentalistas religiosos. E ainda assim a eleição está renhida, com as sondagens a 50-50. Estes americanos são loucos. É o costume.