José Pacheco Pereira
in Público, 10 de Novembro de 2012.
"Mesmo nesta fase tardia da guerra e no caos da cidade em ruínas, o regime demonstrou uma capacidade notável para improvisar uma resposta de emergência. Foram enviadas equipas de assistência para Dresden na manhã a seguir ao ataque. Dois mil soldados e mil prisioneiros de guerra, juntamente com equipas de reparações de outras cidades da região, foram enviados de imediato. Criou-se um posto de comando e um sistema de comunicações para coordenar o trabalho. Três dias depois, estavam já a ser distribuídas seiscentas mil refeições quentes por dia. Foi declarada a lei marcial e os saqueadores detidos e, em muitos casos, executados sem demora. A terrível tarefa de recolher os cadáveres carbonizados começou, em parte, a cargo de prisioneiros de guerra. Com precisão burocrática, as autoridades da cidade recolheram e contaram os cadáveres. Mais de dez mil foram sepultados em valas comuns e nos arredores da cidade".
"O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo."José Maria de Eça de Queirós