Eça está sempre na moda (II)

"O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja  desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce. As quebras sucedem-se. O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo."
José Maria de Eça de Queirós
in "As Farpas", Maio de 1871.

Fúria a solo



«Que Haja Festa Não Sei Onde», Manuel Fúria e os Náufragos.

Apesar de se ter notabilizado como vocalista d'Os Golpes, a verdade é que já havia Manuel Fúria antes da banda. Em 2008, no arranque da editora Amor Fúria da qual era co-fundador, lançou o EP «As Aventuras do Homem-Arranha». Suspensa a aventura da banda de Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco, Manuel Fúria volta a solo, embora acompanhado por uma excelente banda de suporte. Trocando o rock de garagem com sabor a folclore d'Os Golpes por um folk com tonalidades rock, Fúria trilha aqui caminhos que acabam por remeter para uns Ra Ra Riot ou Arcade Fire à portuguesa. A atmosfera sonora é suportada por uma variedade de instrumentos a cargo dos Náufragos, dos quais se destacam elementos com provas dadas em outras bandas, como Pedro Galvão Lucas na bateria (Os Velhos), Silas Ferreira nas teclas e no clarinete (Os Pontos Negros) ou Tomás Wallenstein no violino (Capitão Fausto). O disco chama-se Manuel Fúria Contempla Os Lírios do Campo, tem lançamento previsto para o próximo dia 28 de Janeiro e promete uma série de participações especiais. Entretanto, Manuel Fúria está confirmado no cartaz do Vodafone Mexefest, a realizar nos próximos dias 7 e 8 de Dezembro em Lisboa.

Fogo Posto

Visto que as smartshops são estabelecimentos que fintam a legislação para comercializar substâncias alucinogénicas que não só podem ter consequências permanentes e irreversíveis para a saúde como representam em muitos casos uma porta de entrada para as drogas duras, esperava-se que fosse apenas uma questão de tempo até essas lojas começarem a ser alvo do mais simples vandalismo. Entretanto, a imprensa portuguesa parece ter despertado para o fenómeno e nos últimos tempos têm sido publicadas diversas reportagens que descrevem o negócio das smartshops. Após a reportagem da TVI emitida na última segunda-feira à noite, verificou-se o primeiro caso de fogo posto. Só que em vez de ter um desses estabelecimentos como alvo, o ataque visou as instalações de uma associação de reabilitação de toxicodependentes, cujo director tinha criticado as smartshops alertando para o perigo que «representam para os adolescentes e respectivas famílias».

Aborto Ortográfico

Quem já experimentou, sabe que é um tormento ler um livro técnico de engenharia traduzido para português do Brasil. O esforço de interpretação é de tal forma exigente que, muitas vezes, é preferível utilizar a versão inglesa do manual. Para além da sintaxe, existem incontáveis diferenças ao nível dos termos técnicos (torque em vez de binário, só para dar um exemplo). Embora seja um problema recorrente em outros campos, pode ter implicações perigosas, como no caso dos manuais de utilização de equipamentos médicos. Sob pretexto de unificar a grafia da língua portuguesa, o Acordo Ortográfico ignorou completamente as diferenças entre a terminologia técnica, o que pode provocar equívocos como os que são relatados pela tradutora Paula Blank, num interessante texto de opinião publicado pelo Público e disponibilizado pela página da Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o Acordo Ortográfico.

Campeão

Durante quase uma década, Lance Armstrong foi o ciclista mais controlado do planeta. Nos quatro cantos do mundo, dentro e fora de competição, de dia e de noite, através de sangue ou urina, Armstrong foi sujeito a centenas de controlos anti-doping sem nunca acusar positivo. Venceu sete Tours de France, sempre de forma transparente e com inquestionável fair-play. Na sequência de um processo da agência norte-americana antidopagem, o Presidente da União Ciclista Internacional (UCI) decidiu retirar as sete vitórias da Volta a França de Armstrong, acrescentando que o seu nome «merece ser esquecido». Engana-se. Armstrong pode ser banido e as suas vitórias apagadas dos registos, como aquelas fotografias retocadas da União Soviética, mas as suas Voltas não serão apagadas da nossa memória. Por muito que queiram, será sempre um campeão.

Leituras que fazem falta

Faço parte de uma geração que, demasiado jovem para ter lido o jornal, cresceu com saudades d'O Independente. Não só pelo que foi, mas principalmente pelo que nos contaram que foi. Pelo que representou. Assim sendo, vale a pena ler estes dois artigos editados pelo i sobre o O Independente. Ainda por cima publicados no dia seguinte à greve dos jornalistas do Público, confirmam que certas notícias da morte do i podem ser manifestamente exageradas.